Compromisso, de Augusto Canetas - Opinião

janeiro 23, 2013

"Compromisso"

Há uns aninhos que tenho este livro (desde 2008); na altura tentei ler e desisti, e agora consegui levá-lo até ao fim. Confesso que foi um livro um bocado complicado de ler (daí ter desistido da primeira vez), principalmente porque a adaptação ao estilo de escrita demorou um bocado! Primeiro estranha-se, depois entranha-se, não é? Tanto este Compromisso como um outro livro de poesia de Augusto Canetas foram comprados pela minha mãe  escritor, ficando o romance para mim e o outro para a minha irmã, por isso é que não sei o nome, nunca li o outro...

Gostei da narrativa, uma história simples mas um pouco inesperada! Tem umas reviravoltas interessantes e tristes, mas pinta a vida tal e qual como ela é: dura e real. E penso que este é um dos pontos mais importantes deste Compromisso. A escrita, tal como disse antes, é incomum (pelo menos dentro do meu universo literário), mas não é por isso que deixei de gostar menos do livro: Augusto Canetas escreve quase poesia em prosa, e não escreve de maneira diferente do normal para ser diferente, ou um novo Saramago. Pelo que eu senti, escreve de maneira diferente porque é assim que a alma dele fala.
No entanto, nem tudo são rosas, e pela história havia alguns erros ortográficos que me incomodaram assim um bocadinho... e eram erros que me pareceram apenas de distração, pois nem sempre ocorriam: á, voçê, encontrasse em vez de encontra-se... Como não conheço a restante obra, acredito que sejam, tal como já disse, de distração.

Algumas passagens do livro que mais me agradaram!

"O tempo não existia na cronologia das horas, (...)"
(é uma frase descontextualizada, no entanto quando cheguei à vírgula, fiz precisamente isso, descontextualizei-a, e abriu-se para mim de um modo tão bonito!)

"- O que terá acontecido? A rapariga parece estar possuída pelo demónio! Ou é bruxaria, Baila-me Deus, alguém lhe fez mal!... Ainda ontem, a outra semana, sei lá... estavas tão bem, não compreendo! (...)"
(isto são as nossas gentes. Este diálogo tem algo de reconfortante e familiar. Porque isto, é a nossa gente.)

"- Não Laurinda, todos temos o pecado metido na alma que se chama amor e quando acontece arde por toda a parte a derreter o suco inflamado de uma outra metade por concluir o abismo da paixão... (...)"

"Extasiados, ambos se amaram entrelaçados pela união dos lábios ante a jovialidade da saliva submersa das bocas ávidas de beber o mesmo vinho!..."
(confesso que sou um bocado obcecada com descrições de beijos... no entanto, quantos escritores conseguem descrever um gesto tão íntimo e tão recorrente de uma maneira inovadora e mesmo assim sensual?)

"A vida é aquilo que se reconhece que é, quando se entende os erros pensa-se que a culpa é sempre dos outros, a nós nunca nos acontece nada ou não nos diz respeito algum!..."

"Porque a vida é curta
Merecemos melhor.
O mundo é dos loucos,
Quem o quiser viver
Sossegado a ver...
Que enlouqueça aos poucos... (in flashes)"


You Might Also Like

2 comentários

  1. Existem gestos que nos marcam... na literatura, hoje, faltam pessoas frontais.
    Por que as palavras nos encantam, gostei das suas acerca do compromisso.
    Tenho pronto outro romance. Gostava de possuir o seu contacto.
    Boa disposição.

    augusto canetas

    ResponderEliminar
  2. Olá!

    Fiquei, ao ler o seu comentário, muito agradada pela atenção dispensada, e por ter gostado das palavras.
    Fiquei curiosa em relação ao novo romance. Assim que tenha oportunidade, lê-lo-ei atentamente! O meu contacto é nadia.s.batista@hotmail.com

    Bom fim de semana,

    Nádia Batista

    ResponderEliminar

Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.