domingo, 27 de janeiro de 2013

Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco - Opinião


Eusébio Macário 

Título: Eusébio Macário - História Natural e Social de uma Família no Tempo dos Cabrais
Autor: Camilo Castelo Branco
Editora: Ulisseia
Colecção: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses
Número de Páginas: 143 (contando com a Introdução, a história começa na página 33)

Curiosidade: este livro é tão antigo, que custou 355$!







Contextualizar a história é simples, se pensarmos que a mesma foi publicada em 1879 e nessa actualidade portuguesa o que estava em voga era o Tempo dos Cabrais.

Eusébio Macário conta-nos a história de seis personagens, cada uma peculiar à sua maneira:
Eusébio Macário, o boticário, homem com grandes convicções políticas, completamente contra a medicina moderna.
José Fístula, filho de Eusébio Macário e ex-seminarista, rapaz que esgotou a fortuna da família na boa vida (tavernas, mulheres e fado), tendo voltado para junto dos seus e ajudado o pai na botica.
Custódia, filha de Eusébio, boa moça casadoira.
Justino, o abade, homem que renegou a sua fé e andou perdido, até um dia matar um lobo e ser condecorado na terra (aliás, promovido a abade!). Tornou-se aos olhos de todos, incluindo os que antes lhe apontaram o dedo, um homem importante e para ter em estima.
Felícia, rapariga da terra feroz, que não se dava a brincadeiras com homens, até que sucumbiu ao abade, tomando conta dele durante 16 anos.
Bento Montalegre, irmão de Felícia, vindo do Brasil com uma riqueza imensa, que se apaixona por Custódia e não vê com bons olhos a relação de Felícia com o abade.

A história é-nos contada de uma maneira divertida, numa espécie de sátira da sociedade de então: as descrições são exageradas e sujas, extensas e cómicas, ridicularizando o ambiente e as personagens. Ao ler o livro não pude deixar de generalizar cada personagem:

Eusébio, intrincamente ligado à política e contra os progressos da medicina, encarna o próprio espírito político da época, da corrupção, e da tentativa de manter a evolução das mentes o mais longe possível.
Fístula, o boémio, demonstra os intelectuais de então, dos quais até hoje nos chega a figura de se sentarem em bares a falar e a cantar, a desperdiçar tempo que podia ser gasto a fazer algo mais útil para a sociedade.
Custódia e Felícia são o oposto uma da outra, uma mais fácil e sedutora e outra tão adversa a homens mas sedutora na mesma. Mulheres.
Justino é a crítica e imagem clássica, dos padres que caiem no pecado com todo o gosto e que não se envergonham de o fazer, ostentando até, se bem que com algum pudor e cuidado, os troféus da sua vida pecaminosa.
E Bento, o novo-rico, e as suas manias de luxo e esbanjamento de dinheiro (a construção do palácio no Porto, o dote da irmã), e os títulos comprados e oferecidos por ter retornado do Brasil rico, são também o retrato de muitos novos-ricos de então e de agora.
Não sei se foi esta a ideia com que ficaram, mas após ler o livro, foi esta com que fiquei...

Se bem que numa narrativa mais irónica e, permitindo-me a repetição, suja, é um deleite de ler: as descrições, como mencionei antes, são preciosas, e um verdadeiro banquete para a imaginação, pois é fácil perdermo-nos a visualizar desde os elementos mais simpáticos, como os bosques que observam de lá de cima, como os menos simpáticos, como "(...) as mulheres são cabeludas como cabras, e têm as pernas grossas, cepudas com borbulhas escarlates como rocas de cereja, e mostram nos cotovelos umas durezas como cascas de mariscos" (mas incrivelmente necessários e perspicazes!).
Sendo Camilo Castelo Branco um autor por quem sempre senti um carinho muito grande (mesmo antes de ter conhecido a sua obra), considero fundamental a leitura de Eusébio Macário. Desenganem-se os que pensam que é um clássico maçudo da Literatura Portuguesa: é um livro que se lê bastante bem, em que conseguimos quase sentir os cheiros e ver as pessoas à nossa volta com tamanha e pormenorizada descrição, e que, apesar de tudo, continua a ser um livro actual...íssimo!

Quase me esquecia de um outro pormenor... quem conhece Camilo sabe que ele era um eterno D.Juan, basta pensarem na história da casa de S. Miguel de Seide, na história do convento da filha, na própria prisão e vida com Ana Plácido... Com isto quero chegar à dedicatória do livro:

"Minha querida amiga
Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os “tiques” do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi.” 

Acho que não é preciso dizer mais nada :)
Não me alongo mais, se quiserem estudar a obra a nível literário e histórico mais aprofundadamente, basta uma rápida pesquisa, aqui fica a minha opinião sobre este belo livro.

"- Não pense em jazigos! Coma e beba; a vida é um pagode, uma asneira alegre que se vai numa gargalhada. Quem cá ficar que nos enterre onde quiser. Que diabo!"
José Fístula

2 comentários :

  1. espetacular ! adorei, e copiei para o meu contrato de leitura. um grande muito obrigado e os meus sinceros parabéns

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    1. Olá!

      Muito obrigada pelas tuas palavras :) No entanto fiquei curiosa, que contrato de leituras é que falas?

      Bom fim de semana ^^

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Obrigada por comentares :)