quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

[Desafio Literário F] O Jardim Secreto, de Francisco Gouveia - Opinião [Pela Editorial Bizâncio]


Título: O Jardim Secreto
Autor: Francisco Gouveia
Editora: Editorial Bizâncio
Páginas: 258

Não são muitos os casos em que o resumo de um livro me leva a pensar uma coisa e afinal a história é diferente. Ainda mais raro, é eu realmente gostar da história após interpretar mal a sinopse. E é precisamente isso que me aconteceu com O Jardim Secreto. Estava à espera de uma determinada linha de história quando fui presenteada com outra, igualmente maravilhosa e completamente diferente.
Este livro é passado em Salém, Trás-os-Montes, onde os dias "(...) eram longos, para o tédio dos ricos e para o trabalho dos pobres." e "(...) curtos, para a cobrança dos poderosos e para a alegria dos submissos.". É uma terra apática e solene, escondida e que esconde segredos terríveis. As personagens são intrincadas, como indivíduos e como colectivo, pois as relações expostas são tudo menos simples. Damos por nós a torcer por determinado casal, a compadecer-nos por uma ou outra alma, mas Francisco Gouveia garante que todas as nossas esperanças saiam frustradas. Muito bem escrito, só no final é que podemos descansar, pois as surpresas irremediavelmente acabam.
No inicio do livro temos uma ideia de que terrível segredo é que paira sobre os Monforte, senhores de Salém. Mas a maneira como tudo se desenrola até esse momento é bonito e apaixonado, e quando julgamos ser essa revelação o clímax do livro, eis que Gouveia nos troca novamente as voltas, sendo o clímax revelado apenas nas últimas páginas. Portanto, para quem quiser o livro, sim, só no fim é que se sabe de tudo mesmo; não adianta tirar conclusões antes! Ou então eu é que não me apercebi de nada durante a leitura... Melhor assim, pois a surpresa (e a emoção, confesso) soube melhor assim.
Pedro, Paulo, Ivo e Eva, tal grupo de amigos, unidos e despreocupados, pensadores e inteligentes. O futuro de cada um deles doeu de aceitar. D. Luzia, Abel, Julião, Isabelinha, Ester, Sara e Elias, tudo em família, tudo nos Monforte, criam em nós sentimentos quase palpáveis de tão reais que se assemelham. Padre Saul, esse bom homem, perdido em dualidades. E de fundo as Invasões Francesas, que marcam e remarcam a trajectória de cada personagem e das relações entre si.
A história de amor principal é comovente e bela. A naturalidade por parte de um, a incerteza por parte de outro, as tentativas falhadas de mudar o curso da natureza e a aceitação/resignação. As perdas e os reencontros. A dor e a cumplicidade, o segredo e a felicidade, o desespero e o alívio andam de mãos dadas à volta destes amantes. Uma das mais bonitas histórias de amor que li nos últimos tempos.
O Jardim Secreto apanhou-me completamente desprevenida, deixando-me apaixonada por si e pela história - ou não fosse este um jardim de amores e desamores!


"Era o preço do tempo, a sua forma de exercer o seu poder num mundo que nem sempre tinha paciência para ele. Quem confia no tempo é sempre servido, mas muitas vezes não se dota o homem com a perseverança capaz de aguentar o passar desse mesmo tempo, e, assim, não pode o curador do mundo cumprir a sua missão."

"É para isso que servem os sonhos, para nos dar o pouco de felicidade que a vida nos recusa."

"O silêncio é o melhor aliado do espírito e o maior inimigo do tempo, porque consegue pará-lo."

"Acreditar por acreditar, pela necessidade de nos agarrarmos a algo da vida que nos dê sentido, mesmo que esse algo seja uma construção ideal do nosso pensamento."

"Durou o tempo de um nada aquela eternidade de um momento."


(se lerem o livro, perceberão o significado das borboletas...)

1 comentário :

  1. Nunca ouvi falar dele mas pela tua opinião parece interessante :D

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