domingo, 24 de fevereiro de 2013

Romance Clandestino, de Christine O'Connor - Sinopse & Opinião

Romance Clandestino

Título: Romance Clandestino
Autora: Christine O'Connor
Editora: Abril/Controljornal
Ano de Publicação: 1999
Número de Páginas: 96

"Quando Paul pensava em Clara, o mundo à sua volta desaparecia. A paixão consumia-o ao ponto de recear enlouquecer. Clara correspondia com fervor ao seu sentimento, mas ambos sabiam que os pais da jovem jamais consentiriam no noivado. Na Inglaterra vitoriana do século XIX, o matrimónio entre um jovem da burguesia e uma donzela da nobreza era palavra proibida. Apoiando-se na sua profissão de médico, Paul elaborou um plano para obrigar os condes de Beasmont a cancelarem a boda de Clara com o idoso duque de Moore e a dar-lhe a jovem em casamento. Sem dúvida, ambos teriam de agir com extrema cautela, já que o logro poderia ser descoberto e deitar por terra os seus sonhos de felicidade."


Sexta-feira chovia como se não houvesse amanhã e devido à distância tive de deixar o livro Angelyraa no carro. Enquanto estava a fazer o jantar, e aborrecida com o que estava a dar na televisão, comecei a folhear a pilha de revistas para o Ecoponto que estavam na cozinha, e do meio das revistas estava este pequeno livro. Olhei para ele com desprezo, pois lembrava-me bem destes livritos há uns anos atrás, e pensei "quem é que realmente se dá ao trabalho de ler estas tretas...". É um pensamento feio, eu sei, mas foi o que me veio à cabeça! Por descargo de consciência, decidi ler a sinopse, e as palavras "Na Inglaterra vitoriana dos finais do século XIX (...)"... Na Inglaterra vitoriana... Inglaterra vitoriana... foi mais forte que eu e decidi ceder e ler o livro.
Tendo acabado de ler o livro, apenas posso dizer que, apesar de não o considerar uma obra-prima nem exemplo de excelência e perfeição, o primeiro pensamento foi completamente errado, e a boa e velha frase não julgues um livro pela capa fez todo o sentido...

Passado numa "(...) Londres que parecia de uma moral provinciana e que não aceitava no seio das suas sociedades científicas homens como o doutor Aubré só porque as suas concepções eram demasiado avançadas", e onde se desacreditava "(...) um escritor como Oscar Wilde só porque a sua vida íntima repugnava à rainha", a história deste livro não é original, portanto, pensei que queria mais interessante transcrever-vos três cartas trocadas entre os dois apaixonados, antes do enredo se complicar.

"Adorada Clara,
Saberás perdoar o meu atrevimento, mas, desde que te vi, senti-me perturbado pela tua beleza. Desde então, só consigo pensar em ti e nada anseio mais no mundo que os meus sentimentos de amor por ti sejam correspondidos. Sei que ainda és muito jovem e que não tenho um título da nobreza que me torne merecedor da tua mão, mas, em contrapartida, ofereço-te a fortuna que já comecei a fazer. E, sobretudo, ofereço-te o meu coração repleto do mais doce amor.
Não ignoro a oposição que a minha confissão destes sentimentos poderia ocasionar por parte dos teus pais. Mas estou disposto a lutar por ti com todas as minhas forças, com toda a minha alma.
A minha vida não teria sentido se não a vivesse ao teu lado. Nas minhas veias não corre sangue azul, mas o meu coração palpita a um ritmo febril e desesperado por ti, querida Clara.
Ofereço-te tudo o que tenho e, sobretudo, tudo o que sou: um homem apaixonado por um imenso desejo de fundar uma família contigo.
Anseio por estar a teu lado e, se correspondes aos meus sentimentos, como espero, amanhã, se me responderes, apresentar-me-ei ao teu pai para lhe pedir autorização para te cortejar. Fixarei a data do casamento para daqui a dois anos. Nessa altura, terei o dinheiro necessário e tu terás 18 anos e estarás em condições de te tornar minha mulher. Minha mulher! Que bem que soa! Oxalá o meu sonho se transforme em realidade. Se assim não fosse, tenho a certeza que não conseguiria suportar tamanha infelicidade. Amo-te, Clara. Já com 29 anos, em breve com 30, conheci o verdadeiro amor. E o verdadeiro amor tem o teu nome e o teu rosto. Diz-me que sim e farás de mim o homem mais feliz da terra. Sei que vou dizer-te uma coisa insensata, mas o amor tornou-me intrépido. É certo que estar apaixonado, como se dizia na Idade Média, é estar doente. E eu sofro no seu grau máximo dessa formosa doença chamada amor. Por isso, não me envergonho de confessar que, se me disseres que me amas, mais nada me importará no mundo. Passarei até por cima da possível oposição dos teus pais. Se for preciso, raptar-te-ei e iremos viver onde ninguém nos conheça. Mas isso não será necessário, não é verdade? Oxalá não seja, pois não me agradaria privar-te do afecto das pessoas que amas.
Vês? Vês que estou doente, que sofro de aegritudo amoris? Ainda não me disseste nada e já estou a planear o nosso futuro. Mas é que, querida Clara, não consigo conceber a ideia de que esta carta tenha uma resposta negativa.
Na última vez que te vi, estavas muito bela. Senti inveja do laço que te rodeava a cintura. Teria dado tudo para que os meus próprios braços estivessem no lugar dele. Mas tu és uma menina e eu sou um homem, e não devo dizer estas inconveniências. Perdoa-me, mas compreende que as digo por amor. Nunca esqueças isto: tudo o que faço e farei está relacionado com o amor que sinto por ti. Interrompo esta carta não porque não queira continuar a escrever-te, mas porque devo partir dentro de minutos se quero ser pontual na visita médica à tua mãe e entregar-te esta carta.
Como irei a tua casa nos próximos dias para vigiar a saúde da condessa, terás oportunidade para me entregar uma resposta. Espero-a ansiosamente e creio que não poderei dormir até a receber.
Teu,
Paul Doubtern"

"Paulo, meu muito querido Paul,
Às mulheres da minha classe estão vedadas as palavras de amor sinceras. Não é de verdadeiras damas - dizem em minha casa - exprimir os sentimentos ao ponto de revelar o fundo do coração. Por isso, não tenho o hábito de dizer o que penso nem o que sinto. Saberás perdoar, portanto, que não seja tão expressiva como foste na tua carta, mas tentarei dizer o que quero.
Estou triste, e o meu destino está irreversivelmente selado. Os meus pais anunciaram-me que, em breve, deverei casar com o duque de Moore. Suponho que o conheças e saibas que é um ser desprezível. Serei a mulher mais infeliz do mundo, mas isso não importa aos meus pais. Nem sequer lhes importará que, já livre da tutela deles e ao encargo do meu marido, passe de alcova em alcova, em busca de consolo. A única coisa que importa é que dê um filho ao duque. Assim, a sua fortuna passará para o descendente e os cofres da família encher-se-ão. Tem sentido, então, que te fale dos meus sentimentos? Fá-lo-ei, porém, pois não posso calá-los.
Amo-te desde o primeiro momento em que te vi. Também eu estou dente, também eu sofro dessa estranha enfermidade a que chamas de aegritudo amoris. Digo-te porque, além de seres o homem que amo, és médico, e isso permitir-te-á compreender que não sou uma mulher insensata por ter dizer o que te digo.
Tal como tu, estou doente. Estou doente dessa doença tão doce que tanto se parece com a loucura. Não consigo fazer nada além de pensar em ti. Esta doença faz com que o meu corpo domine a razão. Não obedece às minhas ordens, enche-se de sensações que nunca tinha experimentado. Shuva diz-me que isso é o desejo, e que é a forma como o amor entra em nós e se apodera do corpo.
Não creias que sou insensata, considera-me uma doente grave. Estou a morrer de amor. O meu mal tem cura? Tê-la-ia se pudesse pertencer-te, mas os meus pais determinaram que tenho de casar com o duque de Moore. A notícia atingiu-me como um raio. Não deixo de chorar desde o momento em que soube.
Contudo, uma chama de esperança arde ainda no meu coração. Se estás disposto a tudo, não me importarei de enfrentar qualquer risco se o prémio é estar contigo. Fala com os meus pais e, se não ouvirem a voz da razão, rapta-me, leva-me daqui. Shuva disse-me que a doença de que padecemos tem uma única cura, que consiste em entregarmo-nos um ao outro. Quero entregar-me a ti. Não me importo se isso está fora do protocolo imposto pela rainha Vitória. Não me importo se perder o amor e a fortuna dos meus pais. Nada me importa. Só tu.
Amanhã, quando vieres visitar-me, estará aqui o duque de Moore, que virá pedir a minha mão. Que farei para não morrer? Diz-me o que hei-de fazer. Não me importaria se tivesse de mentir. Nem sequer se tivesse de fugir. Se me ordenares até que o mate, não levantarei objecções a fazê-lo.
Mas não corras riscos. Não me perdoaria se te acontecesse alguma coisa. Tens alguma ideia?
Vem ver-me às dez horas e dá uma carta a Shuva em resposta a esta. Assim saberei se devo ter esperanças de que me salvarás. Não anseio por outra coisa que não seja ser tua mulher. Cura-me desta doença, não como médico mas como homem, o único homem que amei e amarei.
A tua Clara"

"Minha adorada e doce Clara,
Ao abrir a tua carta, abri as portas do paraíso. Não julgava ser merecedor de tanta felicidade. Se me amas, já nada mais me importa na vida.
Com a tua carta fizeste de mim o ser mais feliz do mundo. Curar-nos-emos do mal de que padecemos, porque o nosso destino é estarmos juntos.
A primeira coisa que faremos, adorada Clara, será desencorajar o duque nas suas aspirações matrimoniais. Explicar-te-ei o plano logo que oportuno, mas, de momento, trata de cumprir as minhas instruções. Comoveu-me a tua inocência de menina, a candura com que confessas as tuas sensações corporais. Fazes bem em confiar em mim, sei bem o que é estar doente de amor. Cada vez que penso em ti, o meu corpo é percorrido por um estremecimento. A minha virilidade e a minha consideração pela tua juventude e falta de experiência impedem-me de te dizer que outros sintomas corporais provoca em mim a tua recordação.
Na nossa casa não haverá nenhum retrato da rainha Vitória. Também não nos cobriremos quando estivermos juntos e sozinhos, a nudez da alma e do corpo será uma forma de nos entregarmos inteiramente. Amo-te e o desejo terrível que tortura a minha carne é a forma espiritual e terrena desse amor puramente espiritual que atinge as raias do divino. Talvez seja errado aturdir-te com estas palavras. Ainda és muito jovem, mas o meu desejo carnal está cheio de amor, e isso purifica-o.
Hoje, finge de bom grado a proposta do duque. Diz aos teus pais que pensaste melhor e que te tenta o facto de poderes dispor de fortuna e conhecer o mundo, que te sentirás muito feliz por poderes dar-lhe um filho. Mostra-te frívola e interessada. Eu estarei presente e felicitar-te-ei pelo casamento. Quando nos tivermos retirado, procura a cumplicidade de Shuva. Darás um passeio a cavalo na sua companhia e dr-lhe-ás que volte a casa e diga que tiveste um acidente grave, que caíste do cavalo e te aleijaste.
Irão buscar-te de carruagem ao local que Shuva lhes indicará. Se puderes, finge que perdeste os sentidos e, quando os recuperares, dirás que estás dorida, que te dói o ventre. Entretanto, Shuva oferecer-se-á para me ir buscar e me levar a tua casa para te observar. Também expressarás o desejo de que o duque acorra para junto de ti. Deixa o resto por minha conta. A minha imaginação está ao serviço do nosso futuro. Depois te revelarei mais pormenores do meu plano.
Fica tranquila, o amor é uma cadeia indestrutível. Pensa em mim quando te sentires sozinha. Estarei sempre a pensar em ti.
O teu Paul"

Portanto, a história não é inovadora, mas ficam as questões... será que o plano de Paul correu como planeado? Será que o duque amava realmente Clara, para além de querer conceber um herdeiro? E onde fica Shuva no meio de tudo isto?
É um romance muito, muito leve, perfeito para descansar entre leituras. A escrita é fluída e lê-se muito bem, e com certeza aprendi a lição... Um romance é sempre apaziguador.

Peço desculpa por este comentário ser tão pobre, mas primeiro, não há muito a acrescentar à opinião. E segundo, há cerca de dez minutos atrás estava bem maior, mas o computador foi abaixo e apagou a opinião toda (ao menos as cartas ficaram guardadas), e a inspiração falta-me para escrever algo mais elaborado...!

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