quinta-feira, 21 de março de 2013

21 de Março - Dia Mundial da Poesia


Eu confesso que não sou a maior fã de poesia (ainda), exceptuando alguns autores em específico. Mas hoje há que celebrar o Dia Mundial da Poesia, com uma pequena brincadeira: Vou abrir um livro de poesia ao calhas e deixar-vos-ei aqui o poema dessa página :)

Branco e Vermelho,
de Camilo Pessanha

A dor, forte e imprevista, 
Ferindo-me, imprevista, 
De branca e de imprevista 
Foi um deslumbramento, 
Que me endoidou a vista, 
Fez-me perder a vista, 
Fez-me fugir a vista, 
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso, 
Branco deserto imenso, 
Resplandecente e imenso, 
Fez-se em redor de mim. 
Todo o meu ser, suspenso, 
Não sinto já, não penso, 
Pairo na luz, suspenso... 
Que delícia sem fim! 

Na inundação da luz 
Banhando os céus a flux, 
No êxtase da luz, 
Vejo passar, desfila 
(Seus pobres corpos nus 
Que a distancia reduz, 
Amesquinha e reduz 
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana 
Ao longe a caravana 
Sem fim, a caravana 
Na linha do horizonte 
Da enorme dor humana, 
Da insigne dor humana... 
A inútil dor humana! 
Marcha, curvada a fronte. 

Até o chão, curvados, 
Exaustos e curvados, 
Vão um a um, curvados, 
Escravos condenados, 
No poente recortados, 
Em negro recortados, 
Magros, mesquinhos, vis. 

A cada golpe tremem 
Os que de medo tremem, 
E as pálpebras me tremem 
Quando o açoite vibra. 
Estala! e apenas gemem, 
Palidamente gemem, 
A cada golpe gemem, 
Que os desequilibra. 

Sob o açoite caem, 
A cada golpe caem, 
Erguem-se logo. Caem, 
Soergue-os o terror... 
Até que enfim desmaiem, 
Por uma vez desmaiem! 
Ei-los que enfim se esvaem, 
Vencida, enfim, a dor... 

E ali fiquem serenos, 
De costas e serenos. 
Beije-os a luz, serenos, 
Nas amplas frontes calmas. 
Ó céus claros e amenos, 
Doces jardins amenos, 
Onde se sofre menos, 
Onde dormem as almas! 

A dor, deserto imenso, 
Branco deserto imenso, 
Resplandecente e imenso, 
Foi um deslumbramento. 
Todo o meu ser suspenso, 
Não sinto já, não penso, 
Pairo na luz, suspenso 
Num doce esvaimento. 

Ó morte, vem depressa, 
Acorda, vem depressa, 
Acode-me depressa, 
Vem-me enxugar o suor, 
Que o estertor começa. 
É cumprir a promessa. 
Já o sonho começa... 
Tudo vermelho em flor... 

in Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa,
de Eugénio de Andrade

2 comentários :

  1. Ois,

    Já somos dois, tambem não gosto, mas claro respeito e muito quem escreve desta forma.

    bonita homenagem :)

    Bjs

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  2. Foi um acaso bem interessante, pois Camilo Pessanha é dos poucos poetas que gosto. Estudei-o, no meio de tantos outros, em Literatura Portuguesa, e fiquei sempre com o bichinho por este escritor... E este poema achei-o muito bonito mesmo. Coisas do acaso :)

    Beijinhos

    ResponderEliminar

Obrigada por comentares :)