quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Essência do Sangue, de Caryl Phillips [pela Bizâncio] - Opinião



Título: A Essência do Sangue
Título Original: The Nature of Blood
Editora: Editorial Bizâncio
Ano de Publicação: 1999
Número de Páginas: 188


A Essência do Sangue conta-nos duas histórias separadas mas com a mesma linha condutora: a essência do sangue, da alma, do ser.
Começamos por conhecer Eva, uma jovem judia , após a libertação do campo de concentração em que esteve encerrada. Depois, somos apresentados a um general africano, e a sua vida em Veneza. Este livro não tem capítulos - ao invés, a história entrelaça-se em si e à volta do âmago destas personagens.
Na história de Eva, Caryl Phillips conseguiu algo não muito fácil, que é sentirmos a Eva. Contada na primeira pessoa, conseguimos transportar-nos para a alma da jovem, sofrendo e batalhando com ela. A escrita é comovente e dura, dolorosamente real e amargamente triste. Sentimo-nos perdidos na loucura de Eva, na procura da sua/nossa mãe. Sentimo-nos desconfiados com Gerry. Sentimo-nos presos num casulo frágil, que pode desmoronar a qualquer segundo, irreconhecíveis.
Quando o general comanda as páginas, não é tão dramático (o que causa um impacto ainda maior quando voltamos a Eva). De facto, a história do general é uma bonita história de amor, entre ele e uma jovem veneziana, apenas assombrada pelo fantasma da família deixada em África e pela guerra. Apenas, porque não vai influenciar irreversivelmente o futuro dos dois apaixonados.
É incrível como o livro parece ser escrito por duas pessoas completamente diferentes: um retrato intimista e trágico, e um retrato mais leve e despreocupado. No fundo, Caryl pinta-nos. Não tão drasticamente, mas somos nós que ali estamos. Numa das camadas de Eva. Nos receios do general. Nos preconceitos raciais (na história do general, os judeus são novamente trazidos, e com eles nasce quase uma terceira história, que alia injustiça a medo, dúvidas a mito).
Ao iniciar o livro pensei que fosse apenas mais um livro. Chamou-me a atenção por dois motivos: por parte da história ser da altura da Segunda Guerra Mundial, e por a outra parte ser passada em Veneza. Ou seja, motivos quase levianos para a escolha de um livro, mas que na altura me pareceram suficientes. Agora tenho a certeza que fiz uma escolha muito acertada. É impossível ficar-se indiferente, sobretudo a Eva. Esta personagem marcou-me imenso. Se pelo facto de ser contada por Eva, se imaginando e juntando as peças da sua vida, não sei dizer com certeza. Mas é uma personagem que ainda agora está muito presente.
No final do livro, temos ainda uma surpresa... Acabamos de ler e ficamos a pensar e a digerir ambas as histórias. Tao diferentes e tão... ligadas. Tudo gira à volta do mesmo: a nossa essência. O que faz de nós como nós somos. O que nos leva a ser assim. Como isso molda o mundo à nossa volta. É um romance poderoso, onde o tom da narrativa ocupa um lugar privilegiado. 
O livro não tem uma história que nos vai apaixonar; não tem uma linha de pensamento épica, não tem um final feliz para todos, pessoas morrem, injustiças são cometidas, horrores acontecem. Mas leiam este livro. Pois, acima de tudo, faz-vos pensar no vosso eu.

"O medo era uma emoção fiável. Constante e pura."

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