domingo, 14 de abril de 2013

Trilogia Imagem no Espelho, de Isabel Millet - Opinião [Chiado]

Trilogia Imagem no Espelho
Vol. I - Guilhermina e Pablo (2009)
Vol. II - A Dama do Castelo (2011)
Vol. III - Rua da Alegria nº 665 (2012)
Autora: Isabel Millet
Editora: Chiado Editora
Número de Páginas: 736 no total

ERA PORTUGUESA E FOI CONSIDERADA A MELHOR DO MUNDO

Não sei por onde começar com este comentário. Já viram bem as capas? Já tinha falado delas no post com as sinopses dos livros. Mas olhem atentamente. Na primeira temos Suggia e Casals, virados um para o outro mas com uma segunda Suggia lá atrás. Leiam e descubram o porquê. Na segunda temos a violoncelista e o violoncelo, uma artista, uma deusa da música. Sozinha. Mais uma vez, leiam e descubram. Na terceira temos a Guilhermina caseira, com um cesto de gatos. Já não preciso de dizer para lerem este. Quando lerem os dois primeiros este último volume já será de natural leitura. As capas não podiam ter sido melhor escolhidas! Os meus sentimentos ao percorrer a trilogia foram tão intensos... Vamos por livros.

Guilhermina e Pablo

Neste livro conhecemos a infância de Suggia e os seus primeiros anos como música no estrangeiro. E, claro está, o seu romance com Pablo Casals, violoncelista. Ao princípio o livro confundiu-me um pouco, ao ser narrado na primeira pessoa, mas facilmente me habituei às diferenças no narrador (da primeira para a terceira pessoa). Houve apenas um aspecto do livro que não gostei: haver textos em Francês sem tradução (pelo menos aqui apercebi-me que o meu Francês não está tão mau quanto isso!). É um erro grave, a meu ver, pois nem toda a gente percebe Francês, nem tem de perceber, e não devia ser isso que devia contar quando se lê um livro. Tive uma experiência bastante parecida no livro Cartas De Eça De Queiroz Para Os Seus Filhos, e não acho que seja de todo correcto um livro publicado que apresente textos sem ser na língua materna da publicação sem, pelo menos, a sua respectiva tradução.
Focando-me agora no restante livro... é delicioso. Deparamo-nos com uma menina prodígio que começa desde cedo a sua relação com o violoncelo, e que vai crescendo até se tornar numa força do palco com o seu eterno amante. Conhecemos detalhes íntimos da sua existência, da sua vida em França, até à sua relação de amor-ódio com Casals. Neste ponto Suggia tocou-me especialmente, pois demonstrou a força e coragem para lutar pelo que mais desejava na vida: o seu violoncelo.

A Dama do Castelo

No seguindo livro da trilogia encontramos uma Guilhermina adulta e senhora de si, a viver em Inglaterra - a sua segunda pátria. O seu nome era já sonante e ao longo das páginas vamos conhecendo mais pormenores da essência, o encontro com Virginia Woolf (se bem que eu esperava uma relação mais aprofundada), o seu noivado que terminou, e uma vez mais temos um retrato tão intimista de Suggia que arrepia. Os seus medos, as suas inquietações, as suas alegrias, as suas vitórias. Dos detalhes mais chocantes aos menos chocantes, temos ali a Suggia anímica que Augustus John não conseguiu captar.
No entanto, mais uma vez se verifica o erro do primeiro livro, desta vez em Inglês. Continuo a pensar que não é correcto, mas já expliquei anteriormente, portanto fica aqui apenas a anotação.
N' A Dama do Castelo deu-se um dos momentos mais interessantes para mim no livro. Não é relacionado com algo que a Suggia fez, mas é a troca de correspondência dos seus pais. As cartas de um e de outro são muito engraçadas, de uma maneira quase carinhosa. As queixas de um e de outros, e a pobre Guilhermina no meio.

Rua da Alegria nº 665

Enquanto lia este livro passei pela Rua da Alegria mas não tive oportunidade de procurar o nº 665. E também hei-de procurar a Quinta dos Girassóis! Leiam o livro e perceberão o porquê desta curiosidade. Chegamos ao fim desta trilogia com uma Suggia adulta, envelhecendo com todo o glamour e elegância. O seu casamento com um médico português, a sua casa em Portugal, mas a sua constante vida fora do país materno. O reconhecimento. A glória. A eternidade.
E, ao mesmo tempo, ouvimos uma segunda voz. Isabel Cerqueira salta nas páginas deste último livro, contando a sua versão de Suggia primeiro enquanto admiradora, depois como aluna, e por fim como verdadeira amiga.
Neste livro senti a necessidade de entrar em contacto com a escritora, Isabel Millet (que foi possível graças à ajuda da Chiado), para esclarecer de vez a dúvida mais pertinente que me surgiu enquanto lia esta trilogia: continuava confusa com a narração na primeira pessoa, de Suggia. Então a querida Isabel Millet foi imensamente gentil e respondeu-me da seguinte maneira:

"Como sabe, a minha mãe foi grande amiga de Guilhermina Suggia, assim como toda a minha família. Nasci na casa onde ela viveu e morreu, recheada com tudo o que lhe havia pertencido. Toda a minha vida ouvi falar de Suggia, como se fosse alguém da minha própria família. Para além disso, tive também que pesquisar, e muito, sobretudo no primeiro e no segundo livro, para que tudo o que escrevia fosse o mais rigoroso possível. No primeiro livro, "Guilhermina e Pablo", o que fiz foi reconstituir cenas que se passaram: algumas foram-me contadas pela minha mãe e pela minha família, ou por outras pessoas que conheceram Suggia, outras coisas pesquisei em livros, artigos, etc. Baseei-me, por vezes, em algumas fotografias, que depois desenvolvi.
No que respeita ao terceiro livro, este é o mais profundo, para mim, o mais real, é como se eu própria, de facto, tivesse conhecido Guilhermina Suggia, através da minha mãe e da minha família, e da casa, e de tudo o que lhe havia pertencido. Tudo o que escrevi é absolutamente rigoroso e verdadeiro. O que faço, quando falo de Suggia na primeira pessoa, é deixar-me possuir pelo espírito dela, como uma actriz se deixa possuir pela personagem. Quem fala é Suggia, não eu. Porque o meu conhecimento dela é tão profundo, que me permite libertar a sua alma.
 Acontece o mesmo quando fala Isabel Cerqueira, a minha mãe. Eu apenas me limito a escrever aquilo que ela diz."

Penso que estas afirmações por parte da autora são a resposta suficiente para qualquer dúvida - Quem fala é Suggia, não eu. Porque o meu conhecimento dela é tão profundo, que me permite libertar a sua alma. Percebe-se efectivamente uma certeza nas palavras da narradora, uma relação com a vida muito completa, e isso estava a confundir-me. Após ler as palavras da própria Isabel Millet, senti-me inexplicavelmente ainda mais ligada com os livros e com a vida de Suggia. Senti-a. E quando se trata de romances biográficos de outras pessoas, não é fácil conseguir a ligação entre autor-personagem-leitor. Está brilhantemente conseguido nesta Trilogia.

Por fim, umas observações que dizem respeito aos três livros. Todos eles vêm carregados de fotografias, cartas, telegramas, bilhetes. No entanto são poucas as fotografias que têm legenda. Considero este aspecto grave, apenas desculpável caso a autora também não saiba o que está ou o que é cada fotografia. Algumas são facilmente identificáveis (penso), tendo em conta o texto que as acompanha, mas outras nem por isso.
A Trilogia Imagem no Espelho torna-se também um fantástico relato histórico. Guilhermina Suggia assistiu à queda da Monarquia, a duas Guerras Mundiais e a uma parte do Estado Novo (faleceu em 1950), e conhecemos um mundo e uma sociedade pelos olhos da irreverente Suggia.

Concluindo, não precisam de adorar violoncelos para querer ler esta trilogia. Sempre gostei de violoncelo mas Suggia conhecia apenas pelo nome. Após ler Imagem no Espelho sinto que parte de mim enriqueceu. Sinto-me honrada por ter privado com as palavras de Isabel Millet.

 
Esquerda - La Suggia, Augustus John
Direita - Desenho de Suggia de António Carneiro



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