quinta-feira, 9 de maio de 2013

[Desafio Literário Abril] Algumas Crónicas, de António Lobo Antunes - Opinião



Título: Algumas Crónicas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Publicações D. Quixote
Ano de Publicação: 2002
Número de Páginas: 188

Este pequeno livro de crónicas foi a minha primeira experiência com o nosso António Lobo Antunes. E certamente não ficarei por aqui! Já tinha ouvido falar maravilhas das crónicas deste escritor, e finalmente pude comprovar. São deliciosas! Dão-nos a oportunidade de conhecer o seu mundo através das crónicas mais engraçadas. E a maneira como estão escritas envolvem-nos num ritmo de leitura peculiar, devido à pontuação que o autor utiliza. Se bem que poderia ser um aspecto negativo, revela-se totalmente o oposto, pois dá-nos a sensação de ser apenas uma conversa que estamos a ter. 
António Lobo Antunes leva-nos numa viagem desde a sua infância até à sua actualidade, com episódios que nos fazem questionar se realmente aconteceram ou não. E damos por nós a desejar que sim, que tenham acontecido!
Senti, porém, um decréscimo de qualidade nas últimas crónicas, ou então apenas gostei menos do que as restantes. Mas, para mim, as últimas cinco, seis crónicas, estão aquém de todas as outras.
Gostaria de deixar aqui uma das crónicas que li e que me entristeceram, no caso de ser verdade. Espero que não vá contra nenhum direito do autor nem nada que lhe pareça! Mas ao ler esta crónica senti uma compaixão imensa para com todos os Antónios Lobo Antunes que estão aí.

"A Feira do Livro

A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listras e dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribulações de um pai suado, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar. Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias que se não sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito e tímido, acompanhado pelo Nelson de Matos que me pastoreia com paciência, com uma placa com o meu nome e as capas em leque à minha frente, um pouco com a sensação de vender bijuterias marroquinas nos túneis do Metropolitano do Marquês ou fatos de treino fosforescentes na Feira do Relógio, que os leitores folheiam, compram, me estendem para o selo branco, e eu em lugar de lhes explicar obsequioso e seguro que os livros não desbotam nem encolhem na máquina limito-me por falta de vocação cigana a pôr a etiqueta lá dentro
(Deus sabe o que me apetece às vezes assinar Hermès ou Valentino)
e a devolvê-los com o sorriso lojista de quem garante qualidade e boa malha. Como nos saldos da Avenida de Roma acontece de tudo: é o senhor de meia-idade e olhinho alcoviteiro que abre Os Cus de Judas, o folheia com curiosidade primeiro e com desilusão depois e se afasta a desabafar para um sócio de unha guitarrista
- Bolas nem sequer traz fotografias
é o rapaz de cabelo amestrado a gel e crocodilo no mamilo, como dizia o Alexandre, que pergunta numa piscadela cúmplice
- Já agora qual é o que tem mais curtições assim cenas de cama está a perceber?
é a tia virtuosa, de sapatos tipo caixa de violino, preocupada com a educação dos sobrinhos, essas tias que se oferecem sempre para os levar a fazer chichi, que me observa com severidade apostólica
- O que devo comprar para a minha afilhada coitadinha que fez anteontem a primeira comunhão?
é o autoritário que espeta o dedo na página e ordena em voz de furriel
- Ora meta aí: para a Fernanda no seu trigésimo oitavo aniversário com os melhores votos de felicidades e agora enfie o seu apelido
é o que fica a seguir, desconfiadíssimo, o aviar da receita, inclinado para diante de mãos nos bolsos do rabo, e me corrige ultrajado
- Elizabeth é com th você tem alguma coisa contra as Elizabeths ou não é escritor?
Às sete da tarde levanto a tenda. O letreiro com o meu nome desaparece, desaparecem os livros e como por felicidade não moro em Loures nem na Damaia de Cima tenho tempo de celebrar com a Isabel o fim dos saldos lambendo um último gelado. Sentamo-nos na relva como um par de namorados e seguimos à distância os outros vendedores de bijuterias marroquinas ou de fatos de treino fosforescentes a autenticarem os seus produtos num afã de balconista enquanto nós dividimos os Almanaques do tio Patinhas comprados numa prateleira dedicada às leituras difíceis e cujos títulos me encantam: Psicanalise-se A Si Mesmo, Como Enriquecer Sem Sair De Casa, A Vida Sexual De Adolfo Hitler, Dez Cegos Célebres, A Cura Do Cancro Do Útero Pelo Método Espírita. Um bêbedo ao pé de nós ressona como um motor a dois tempos sobressaltos de motorizada. O céu enche-se de nuvens Magritte. Proponho à minha filha uma corrida até ao automóvel e o último a chegar é maricas. No carro ao lado do nosso o autoritário da Fernanda descompõe a dita: tem uma mascote no retrovisor, duas no vidro traseiro, o autocolante de uma menina de chapéu no guarda-lamas, e interrompe-se para a informar
- Aquele é que é o gajo que escreveu o livro.
A Fernanda, toda transparência e folhos, lança-me um rímel distraído do alto da sua opulência glandular e a Isabel que lhe apanhou a indiferença e o soslaio em pleno voo aconselha-me com pena de mim a caminho do hamburger do jantar
- Depois disto tudo eu achava melhor o pai não ser escritor."

Acho que depois disto, não há palavras... Ainda há mais algumas Crónicas que gostaria de vos mostrar, mas terão de ficar para outro dia!

2 comentários :

  1. Olá,

    Ai ando meio desaparecido mas pronto gosto sempre de espreitar os teus comentários e mesmo não tendo nunca lido nada do escritor, tenho lido bons comentários aos seus livros.

    Fiquei curioso sem duvida :D

    Bjs

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Obrigada por comentares :)