sábado, 22 de junho de 2013

A Chave dos Encobertos, de Iria Oceano e Diogo da Gama - Opinião [Estampa]

A Chave dos Encobertos
Titulo: A Chave dos Encobertos
Autores: Iria Oceano e Diogo da Gama
Editora: Editorial Estampa
Ano de Publicação: 2007
Número de Páginas: 320

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... Pois o que fizeram e presenciaram, por não se enquadrar na fé, na ciência, na lógica nem no tempo, permanece encoberto sob nevoeiro...

Estava muito curiosa com este livro, pois tratava-se de um grande mistério de algo que tinha ocorrido em Portugal. Ainda por explicar, ainda por decifrar, ainda por convencer alguns persistentes na busca pela verdade, ainda por compreender, ainda por comprovar. Tinha sido descoberto na Biblioteca Pública do Porto, o que também ajudou à conquista (apesar de depois se descobrir que Lisboa tinha recebido a notícia primeiro). O maior evento português do século XX. Eu tinha de ler este livro.

E logo nas primeiras páginas fiquei tão, tão triste. Tantas expectativas e afinal esse grande mistério era sobre as aparições de Fátima. Não me interpretem mal: não vou começar aqui a dissertar sobre religião nem tampouco me interessa, mas se eu soubesse que esse grande mistério era Fátima, nunca tinha lido o livro. Por um motivo muito simples: não é assunto que me fascine. Claro que podia estar a cometer um erro enorme ao não ler se na sinopse dissesse que era Fátima, pois o livro poderia ser muito bom; mas não é isso que está em causa. Saber que era de Fátima foi um balde de água fria. Serve este parágrafo, pois, para vos avisar do assunto do livro em específico, para poderem tomar a vossa decisão certos de que querem efectivamente lê-lo.

Passado o choque inicial, mantive-me a par dos escritores dentro do mistério, enquanto eram apresentadas teorias e explicações possíveis. E quando digo a par dos escritores, digo no sentido literal: os escritores são as personagens principais deste livro.
Somos levados para 1976, factor crucial neste livro. As pessoas estavam livres e loucas pela sede de poderem estar livres. Queriam tudo, queriam saber tudo, achavam que tinham o direito do saber e do tudo. Aliás, num trecho da história, pode-se ler o seguinte:

"(...) o 25 de Abril derrubara a censura e as pessoas tinham sede de conhecer os mistérios do mundo. A leitura dos livros de capa negra da Bertrand, sobre mistérios, civilizações desaparecidas e enigmas de toda a ordem, era razão de conversa, discussão e colecção. Quem não lia, sentia-se excluído, (...)"

Portanto, é o momento certo para saber mais sobre as aparições. Iria faz uma descoberta fantástica, uma profecia escrita por um grupo de mediums, e a partir daqui o mistério adensa-se.

Devido ao interesse que eu tenho por este assunto, o meu conhecimento acerca das aparições é praticamente nulo, o que dificultou a compreensão da história: conseguir diferenciar entre o que realmente aconteceu ou não foi praticamente impossível, e talvez por isso durante grande parte do livro achei-o maçudo, com diálogos repletos de informação, que por vezes tinha de repetir a sua leitura para conseguir ter noção do que fora dito. No entanto, acredito que é uma questão de como as coisas são expostas: os autores condensavam muita informação de uma só vez, teorias completas e ideias complicadas entrelaçadas entre si, e se fosse mais devagarinho, talvez fosse mais simples a interpretação e a leitura.
Algo que também não me agradou foi um traço da personalidade de Iria, que é o seu feminismo. Sinceramente não tenho paciência para essas discussões, e a personagem está sempre a bater no ceguinho, perdoando-me a expressão. Mas, tenho de olhar para este livro à luz de tudo, e mais uma vez volto a salientar que estamos em 76, portanto consegui compreender a posição e a defesa dos ideais de Iria.

Os autores são personagens completamente distintas, e penso que Diogo nunca é verdadeiramente explicado. Iria é uma mulher do norte, e penso que só isto, por si só, já nos diz muito! Mas não consegui deixar de lado a sensação de que as duas personagens existiram a sério. É uma sensação estranha, pois perdia por vezes a noção da realidade e da ficção; e a forma como os desenvolvimentos se dão no livro, para culminar naquele fim, fez-me questionar realmente se tudo era verdade... ou apenas uma parte... mas se Diogo e Iria são Diogo e Iria!

Um aspecto que adorei neste livro foi ser passado no Porto. Não quero que percebam mal, isto nada tem a ver com guerras e picardias entre tripeiros e lisboetas, por exemplo. Nada disso. É só que eu sou uma eterna apaixonada pela minha cidade e houve uma familiaridade geográfica muito grande, ao ler os percursos de Iria podia imaginar com exactidão os seus passos, as suas horas passadas na Biblioteca do Porto, consegui visualizar tudo com uma proximidade muito grande.

Apesar dos dois aspectos menos positivos que apresentei, não é um mau livro. Apenas não é o livro certo para mim. Para quem se interessa pelo assunto das aparições de Fátima, vai ter um gozo tremendo a debater consigo próprio e com as personagens as diferentes teses apontadas. Vai vibrar com cada ponta de véu levantada e desesperar com cada beco sem saída. Na trama em si, é um livro muito bom. Aconselho portanto aos interessados e curiosos. É uma boa teoria da conspiração - ou não? 

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