[Desafio Literário P] A Demanda de D. Fuas Bragatela, de Paulo Moreiras - Opinião

junho 27, 2013

A demanda de D. Fuas Bragatela
Título: A Demanda de D. Fuas Bragatela
Autor: Paulo Moreiras
Editora: Casa das Letras
Ano de Publicação: 2012
Número de Páginas: 304

Um retrato notável do Portugal Medieval

Quando decidi ler este livro, não houve nada que me conquistasse à primeira. Apenas o quis ler, ponto final. Nunca tinha lido nada deste género sobre Portugal Medieval e este de D. Fuas pareceu-me bem.

O livro é tão engraçado! Esta foi a minha primeira impressão. E tudo por causa da forma como está escrito. O ritmo da narrativa é alucinante, combinando a oralidade de então com palavras inventadas mas que se encaixam tão bem e são tão fáceis de entender que nem duvidamos do seu significado - parece, de repente, que sempre fizeram parte dos nossos vocabulários. Há uma musicalidade latente na escrita deste livro, que nos impele a ler a um ritmo e de uma forma diferente da maior parte dos livros. Penso não conseguir explicar justamente esta afirmação, portanto o melhor que posso dizer é para lerem este livro e entenderão, com toda a certeza, onde quero chegar.
Apesar de ser um factor importantíssimo no livro, este ritmo cansou-me, por vezes. Era tudo muito rápido, passamos entre cenas e capítulos quase sem respirar. A linguagem picaresca também por vezes aborreceu-me. Era tudo tão demais, tão repentino, tão súbito. Acredito que este ponto seja extremamente pessoal, pois o remédio era simples: pousava o livro e lia noutro dia. Por vezes acontecia ler apenas durante 5 minutos e ficar cansada da narrativa, por vezes lia 50 páginas e queria ler mais. Portanto, é um aspecto muito subjectivo.

Agora, o nosso D. Fuas... quando escrevi o Li até à Pág. 100 acerca desta obra, descrevi-o numa palavra: desgraçado. E mantenho o que digo, nem mesmo depois do final mudo de opinião. O homem é um desgraçado, ponto final. Acontece-lhe de tudo. Mas tudo, mesmo. Sabem quando têm a sensação de que de tudo de mal vos acontece? D. Fuas nasce assim e o livro acaba assim. Por mais boas intenções que o personagem tenha, acontece sempre alguma coisa. Ninguém é assim: mas D. Fuas Bragatela é. E é isso que o faz tão único e a roçar no burlesco. Desde assaltos, a pancadaria, a trabalhos forçados, a fugas, a encenações, tudo, tudo, acontece a D. Fuas.

Ao longo do livro encontramo-nos com outras personagens, algumas na mira das vinganças de D. Fuas, outras que ficam na sua vida por um motivo ou outro. A que eu mais gostei foi sem dúvida do velho que leva o nosso personagem na busca de um tesouro. Penso que, mesmo os azares continuando, este velho marca a vida de Fuas, dando-lhe um sentido real e concreto, algo por que lutar e seguir em frente. E não posso deixar de mencionar uma cena em particular que me fez rir imenso, que é quando Fuas e o velho conhecem duas moçoilas numa taverna e passam a noite com elas...

Sem dúvida que nos podemos reconhecer num ou noutro episódio da vida de D. Fuas. Bom ou mau, melhor ou pior, é um pouco da nossa essência e das nossas gentes que estão tão longe mas afinal mais perto do que parece, que estão retratadas. E só para olharmos para o nosso umbigo, já vale a pena a leitura desta demanda.



"(...) não importa quem somos ou o que somos, o fado é o mesmo, que quando nascemos apenas começamos a morrer."

"Ficai a saber, pois, que são os livros das cousas mais importantes que há no mundo e que só os asnos pensam o contrário, que, por muitos livros que possam existir, serão sempre os asnos em maior número, que é raça maldita que nunca mais acaba de tanto parirem."

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.