quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Um Conto, Um Ponto #2: A Queda de um Anjo, de Afonso Cruz

Título: A Queda de um Anjo
Autor: Afonso Cruz
Editora: Diário de Notícias / Escritório Editora
Ano de Publicação: 2012
Número de Páginas: 12

Uma octogenária descontente com o Paraíso, pois não tem junto a si a pessoa que mais ama, decide viajar para o Inferno. Para ela, o Paraíso pode ser infernal e, ao contrário, o Inferno poderá ser uma fonte de felicidade.

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"3º

    O meu marido foi um homem que, a certa altura da vida, começou a juntar anos. Em vez de os viver, juntava-os. Viveu muito tempo, mas sem noção disso. O meu marido já estava tão velho que já não envelhecia, apenas apodrecia. Eu gostava muito dele e não sou capaz de viver eternamente sem o ter a meu lado eternamente. Os desenhos recortam-se com tesouras. A alma recorta-se com palavras. Eu sempre fiz isso muito bem, é como cortar as unhas. Sempre fui muito boa nisso. Há pessoas que sabem saltar ao eixo muito bem e outras que sabem mexer o café com as duas mãos — às vezes com a esquerda, outras vezes com a direita — e outras que sabem fazer contas e dançar ao mesmo tempo. Eu sou boa a recortar palavras. Cada um é para o que nasce e eu com as palavras é como cortar as unhas, mesmo rente à carne.
    Quando era nova usava sandálias e as unhas pintadas. Quando somos novos somos eternos e, em vez de envelhecermos, crescemos. Depois é que começamos a, em vez de crescer, envelhecer. Então deixamos de durar para sempre e começamos a ser avós e a gostar de flores e a andar muito devagarinho e a ter dificuldade em dobrar as costas. O que é uma pena, pois como gostamos mais de flores, temos uma grande tendência para as apanhar e pô-las em jarras com água em cima da cómoda e na mesa da sala. Fica tudo perfumado, tudo florido e cheio de cores. As visitas gostam muito e elogiam. Eu agradeço os elogios e digo: mas olhe que, senhora Guzman, faz mal às costas."

Não sei por onde começar. A Queda de um Anjo marcou-me tanto que acabei por o ler duas vezes. Não conhecia Afonso Cruz e agora sinto que esse foi um dos meus maiores erros literários. A sua escrita cativou-me. As suas palavras apaixonaram-me. A forma como o autor descreve a queda da velhinha que não quer estar sem o seu marido, é comovente. Para além de estar escrito de uma forma bastante leve e directa para o leitor, leva-nos a reflectir o conceito de amor, como é ficar para trás quando aqueles que mais amamos partem.

É frustrante, quando gostamos imenso de algo e na altura de falar sobre esse algo as palavras teimam em não soar boas o suficiente. Lamento não conseguir dizer muito mais do que isto, mas bem... Leiam. Doze, apenas doze páginas, que pelos menos a mim, tocaram imenso.

5 comentários :

  1. Olá,

    Fico contente que tenhas descoberto um novo escritor, confesso que tambem nunca li nada dele, mas conto ainda ler um livro, pois é um escritor muito elogiado.

    O conto a mim e embora concorde que seja escrito de uma forma simples e cativante, não me marcou assim tanto, vamos ver os contos que ainda faltam ler...ai ai estou atrasado :D

    Um dia ainda gostava que lesses uns contos que lemos em leitura conjunta do Manuel Alves, esses sim simples e mesmo muito cativantes e lê-se num tiro, vou procurar e envio-te :)
    Bjs

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    1. Nesta leitura conjunta tenho pensado várias vezes nisso! Agradeço-te :) Ainda hoje tenciono publicar a opinião do segundo conto, e amanhã a do terceiro. Já está tudo escrito, é só publicar :)

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    2. Ois,

      Boa, por acaso estou a passar por vários blog que tenho em atraso e não devo ler já os contos que me faltam, mas a ver se me ponho em dia lol, rico exemplo :D

      Já te vou enviar :)

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  2. Respostas
    1. Olá Anónimo :)

      Se quiseres, envia-me um e-mail para o endereço que está ali em cima (eueobam@hotmail.com), e eu posso enviar-te o conto, uma vez que penso que o DN já não os disponibilize mais.

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