segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Oliver Twist, de Charles Dickens - Opinião

Oliver Twist
Título: Oliver Twist
Título Original: Oliver Twist
Autor: Charles Dickens
Editora: Publicações Europa-América
Data de Publicação: 2005
Número de Páginas: 372

Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist foi publicado originalmente entre 1837 e 1839 na revista Bentley’s Miscellany e publicado em formato de livro em 1838. 
Obra escrita nos intervalos de escrita de outra obra, é notável pelos seus propósitos claros e a sua constante intensidade. Extremamente realista, retrata pela primeira vez a realidade sórdida dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha. 
Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento, à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente.

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Oliver Twist é, até hoje, o livro que mais me custou ler. Não pela sua falta de qualidade - longe disso! A primeira vez que o tentei ler foi há muitos anos atrás, numa colecção que a minha mãe tem (Grandes Romances para a Juventude), dividido em dois volumes. Li o primeiro e... perdi-me a meio do segundo (se calhar é por isso que hoje em dia faço colecção de marcadores de livros). Desisti. Depois, no ano passado, decidi ler a edição que tinha comprado há algum tempo, mas depois meteu-se a criação do Eu e o Bam e 95 outros livros que foram deixando a obra de Dickens para trás, mas sempre a julgar-me, com a sua presença silenciosa na prateleira. Finalmente, voltei a pegar-lhe, um ano e trinta páginas depois de o ter deixado. Foi daquelas leituras relâmpago: depois de lhe apanhar o ritmo, não descansei enquanto não o terminei.

A história deste clássico é sobejamente conhecida, e quase toda a gente sabe que Oliver é um pobre órfão, entregue às ruas escuras e criminosas de uma Londres escura e criminosa. Mas isto, escrito por Dickens, torna-se numa obra-prima, em algo maravilhoso e quase transcendental.
Confesso que esperava (ainda) mais do livro. Não sei porquê, mas esperava muito mais acção do que aquela que a narrativa traz, embora não me possa, de todo, queixar. Apenas queria mais. O livro é tão bom, que queria mais. A história de Oliver é triste e desgraçada, e é impossível não gostarmos da criança. Apesar da sua personalidade ser um pouco fantástica demais - ninguém, com tamanhas adversidades, continua tão bom - é um rapazinho encantador e facilmente cativante. Mas, ainda melhor que o jovem Oliver, estão todos os maus da fita que à sua volta gravitam. Todos os que fazem parte do submundo dos gangs são personagens incríveis, ricas, apaixonantes, imprevisíveis, odiosas, verosímeis. Quem é que consegue deixar que Nancy passe despercebida? E Fagin, o terrível Fagin, com o seu cão. Ninguém consegue ficar indiferente perante personagens tão variadas e poderosas.
E depois, claro, temos a forma como Dickens nos apresenta os seus relatos. Tudo envolto numa ironia fina e inteligente, como se estivesse a falar da pessoa mais correcta do mundo, ao apresentar ladrões; descreve as prostitutas com uma pureza que já não lhes pertence; os hipócritas e corruptos com uma bondade exacerbada. É impossível não nos rirmos com certas passagens da história, pois quase conseguimos imaginar a voz do autor e a sua entoação ao narrar determinados acontecimentos.

"- Dilata os pulmões, lava a cara, exercita os olhos e amacia o mau génio - sentenciou o Sr. Bumble. - Por isso, chore, chore.
Dito o gracejo, o Sr. Bumble tirou o chapéu do cabide e pô-lo à banda, com a inclinação atrevida de um homem convencido de que demonstrou a sua superioridade de maneira conveniente, enfiou as mãos nas algibeiras e dirigiu-se para a porta, todo ele a respirar à vontade e chocarrice.
Deve dizer-se que a ex. Sr.ª Corney recorrera às lágrimas por serem menos incómodas do que uma agressão manual, mas estava absolutamente preparada para experimentar a segunda modalidade, como o sr. Bumble não tardou a descobrir à sua custa.
A primeira prova que teve do facto foi-lhe dada por um som cavo, imediatamente seguido pelo voo súbito do chapéu que tinha na cabeça para o outro lado da sala. Desnudada assim a cabeça do sr. Bumble com este gesto preliminar, a hábil dama agarrou-o com força pelo pescoço, com uma das mãos, enquanto, com a outra, lhe desferia uma chuva de socos (aplicados com singular vigor e destreza). Em seguida, e para variar um pouco, esgatanhou-lhe a cara e puxou-lhe o cabelo e, quando calculou que lhe aplicara o castigo adequado à ofensa recebida, empurrou-o para uma cadeira, que felizmente se encontrava bem localizada para o efeito, e desafiou-o a falar outra vez da sua prerrogativa, se se atrevesse.
- Levante-se! - ordenou a Sr.ª Bumble, em voz de comando. - E ponha-se a andar daqui para fora, se não quer que tome uma atitude desesperada.
O Sr. Bumble levantou-se, com uma expressão muito pesarosa, a perguntar a si mesmo o que poderia ser uma atitude desesperada. Pegou no chapéu e olhou para a porta.
- Sai ou não sai? - perguntou-lhe a Sr.ª Bumble.
- Com certeza, minha querida, com certeza - respondeu o interpelado, e avançou mais depressa para a porta. - Não era minha intenção... Vou já, minha querida, vou já! É tão violenta que, francamente, eu...
Neste momento, a Sr.ª Bumble avançou um passo rápido, para endireitar a carpete que a sarrafusca levantara. Tanto bastou para que o Sr. Bumble corresse da sala para fora sem pensar mais na frase inacabada, deixando a ex-Sr.ª Corney na posse total do terreno."

Tenho pena da forma abrupta como o livro termina. Ou Dickens tinha tudo planeado desde o início e resolveu deslindar tudo no final, ou então é um final feito à pressa e inglório. Vimos de uma série de capítulos repletos de acção e emoção, e de repente tudo termina de uma forma tão leve que deixa uma certa frustração ao leitor. Para mim, foi inevitável não me sentir assim, mas pronto, penso que é o final que o pequeno Oliver merecia. Embora devesse ter sido trabalho mais, e melhor.
O único defeito que posso apontar a este livro é à edição em si. A minha edição é de bolso, mas há limites. As margens são quase inexistentes e isto dificultou imenso a leitura, principalmente porque grande parte li à luz do telemóvel, no qual tinha de segurar enquanto segurava no livro. Mesmo a lê-lo em condições de luz normais, é uma edição triste, e conhecendo a editora e o seu trabalho, penso que podiam fazê-lo melhor.

Não é à toa que Charles Dickens é o vulto que é. Oliver Twist - leitura obrigatória - é apenas mais uma prova irrefutável do seu talento.


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4 comentários :

  1. Olá Nádia
    Excelente comentário :)
    Adoro Dickens, é um dos meus escritores favoritos, quer pela sua escrita, pelos seus temas, pelo ambiente que se vive através das paginas das cidades ou povoações inglesas da era industrial, quer pela magia que ele deposita nas suas personagens e em toda a história.
    Este Natal li um conjunto de contos dele e confesso que já tinha saudades da sua escrita, em breve irei ler Os cadernos de Mr. Pickwick.
    Bjs e boas leituras

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    1. Olá Caminhante,

      Obrigada pelas tuas palavras querida! Eu a sério ainda só tive oportunidade de ler este Oliver Twist... E eu soube disso que me dizes dos contos, quem me dera ter ido ver! Mas já soube que felizmente correu tudo bem ;)

      Beijinhos e um bom último dia de 2013 :P

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  2. Este livro é o original? Eu também o tenho e queria lê-lo mas queria ler o escrito por Dickens,o original(traduzido neste caso) e não um reescrito por alguém.

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    1. Olá,

      Sim, é o original! :) Lê, é uma obra muito boa :)

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Obrigada por comentares :)