FRAGMENTOS do meu Pensar, de Rui Serra - Sinopse & Opinião

janeiro 29, 2014

FRAGMENTOS do meu pensar
Título: FRAGMENTOS do meu Pensar
Autor: Rui Serra
Editora: Sinapis Editores
Ano de Publicação: 2013
Número de Páginas: 114

Fragmentos do meu pensar reúne cem poemas de extensão variável. Alguns deles são numerados: 001… 012, treze, 014, 015; outros, porém, têm sugestivos títulos como “Lírios pretos”, “Semeador de chumbo”, “A insónia é um dom”, “Lua de sangue”, “Palavras feias”, “Nascimento da loucura”, “A minha mente está fora de controlo” e “(In)sanidade”. Os dois últimos em que há uma clara associação do ato criativo a demência. “É por ser mais poeta que gente que sou louco?”, interrogava-se Fernando Pessoa.

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Apesar de não ser dada a muita poesia, algo que ainda pretendo no futuro corrigir, surgiu a oportunidade de ler este FRAGMENTOS do meu Pensar, e pareceu-me uma boa ideia, para aos poucos e poucos me ir apresentando ao mundo da poesia e ainda por cima sendo um autor português.

Não posso dizer que foi amor à primeira vista com este livro. O primeiro poema, para mim, foi uma coisa muito estranha (e espero não cometer nenhuma infracção, mas gostaria de o deixar aqui para vos explicar o meu ponto de vista).

Passeio do poeta

vou nostálgico
por entre nuvens de abetos

Li-o e pensei "é isto? Vai ser sempre assim?" e isto deixou-me um pouco de pé atrás com as restantes cem páginas. Felizmente, Rui Serra provou-me que não é só isto.
Poesia é algo extremamente pessoal, na maioria das vezes. E não é fácil não se ser simpático com uma voz que vem da alma. Mas por vezes essa voz devia deixar-se no ar, não se concretizando (não, não me estou a referir a Rui Serra); no caso destes FRAGMENTOS, senti-me quase como uma intrusa na leitura, de tão pessoal que é, mas acabando por ser uma viagem extremamente agradável, umas vezes clara e aprazível, outras vezes mais obscura e com alguns buracos na estrada, mas chegamos ao fim satisfeitos perante o que lemos.
Gostaria de destacar alguns poemas que, para mim, foram o ponto alto do livro: Reflexos. Essência. Morte. Nascimento da Loucura. O Beijo. Lua de Sangue. Aromas. Todos a vozes diferentes e todos a uma só voz.

Essência

feiticeira irreal
dança teatral
rainha imoral
amor carnal
sonhos mórbidos
desejos sórdidos
mentes despidas
cores garridas
inspiração corrente
dor crescente
vida existente
no seio do teu ventre

Morte

chegaste
e nem te senti.
levaste tudo contigo,
                   os sonhos que me guiavam
                   as ilusões que me iluminavam
roubaste o meu respirar.
um minuto e tudo acabou.
nada mais restou.
somente aqui ficou,
a minha alma.

No entanto, olhando para trás, uma vez que já li este livro há cerca de uma semana, pergunto-me: "será que se o lesse agora, ainda seriam os meus preferidos?". Afinal, a escrita e a leitura de poesia chegam e marcam de maneira diferente, e relembrando o que li, é bem provável que hoje alguns dos poemas (que não estes) me marcassem mais do que outros. Sim, Rui Serra fê-lo: a voz da sua alma falou definitivamente com a voz da minha alma. E isto, para alguém que ainda está longe de ser apreciadora de poesia, não é para todos.

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2 comentários

  1. Olá
    A poesia é um mundo extremamente pessoal, onde vamos entrando pela porta que o poeta nos deixa aberta ao publicar o seu trabalho. Eu adoro poesia, mas acho que se aprende a ir gostando de poesia.
    Não conheço este autor, mas gosto muito do teu comentário.
    E concordo contigo, quando dizes que se lesses hoje o livro, se os poemas preferido seriam os mesmos. A poesia varia consoante a lemos hoje ou amanhã, ou seja a nossa leitura é que varia e o nosso sentimento perante aquelas palavras.
    Aconselho-te Eugénio de Andrade, é o meu preferido, para além de Fernando Pessoa claro :)
    bjs e boas poesias

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    Respostas
    1. Olá Caminhante,

      Estava um bocado receosa com este comentário, creio nunca ter opinado sobre nada tão pessoal! Obrigada pelas tuas palavras :)

      Há alguns poetas que aprecio... Shakespeare, Edgar Allan Pöe, e na literatura portuguesa, gosto muito de Camilo Pessanha. A Pessoa vou-me habituando :)

      Beijinhos

      Eliminar

Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.