terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Entrevista a Sara Reis

Vocês lembram-se em Janeiro de uma das leituras aqui no Eu e o Bam, Bonebreaker? Tive a oportunidade de falar um bocadinho com a sua autora, Sara Reis, e trago-vos hoje essa conversa.

- A Autora -

auto-retrato, por Sara Reis

Olá Sara :) Já sabemos que és a autora de Bonebreaker, mas que mais nos podes dizer sobre ti?

Olá :) Bem, essa é sempre uma pergunta difícil. Acho que vou começar pelo início: adoro desenhar, sou apaixonada por animais e por histórias de fantasia com criaturas míticas e tenho um medo horrível de alturas e aranhas. 

Há quanto tempo escreves? És daquelas pessoas que sempre soube que um dia a escrita iria ser uma parte importante da tua vida, ou foi algo que surgiu inesperadamente?

Nunca na minha vida pensei que iria escrever muito menos publicar um livro! Foi algo completamente novo. Simplesmente sentia-me inspirada e criava as minhas próprias personagens, a partir daí as pessoas perguntavam-me qual era a história delas e eu nunca sabia o que responder. Um dia comecei a escrever capítulos de umas dez páginas para construir uma história. Aos poucos uma amiga minha na altura começou a escrever também e começámos a encarar tudo isso como uma brincadeira, uma vez eu escrevia um capítulo, a minha amiga lia e tinha de escrever outro capítulo que desse seguimento ao que eu tinha escrito.
Mais tarde decidi escrever a história definitiva das minhas personagens em vez de continuar com a brincadeira.

Houve algum momento em que tenhas pensado “vou escrever um livro!”, ou foi um processo natural, o cumprimento de um desejo?

Não mesmo, nunca tinha pensado em fazê-lo. Aliás o que foi publicado foi praticamente um “rascunho” para ser sincera. Eu tinha escrito tudo aquilo apenas para me entreter e talvez, quando tivesse tempo, traduzir para inglês e deixar os meus amigos e seguidores do Deviantart lerem, pois estavam muito curiosos com a história. Até que um dia a minha mãe descobriu que eu tinha escrito tudo isto e decidiu falar com alguns professores e perguntar se conheciam editoras. 
Eu sempre fui muito tímida e sei que não posso agradar a todos, por isso sempre tive um bocado de receio de publicar uma obra oficial, porque sabia que não ia ser tão… digamos “simpático”, como publicar algo na internet. Visto que na internet toda a gente publica o que quiser, enquanto que publicar um livro não é apenas um negócio, é um alvo de avaliação e eu sabia que a minha escrita era algo completamente vulgar que não é apreciado por toda a gente.
No entanto confesso que fiquei bastante feliz ao fazê-lo, apesar de estar longe da perfeição, mas sinto que consegui algo importante na minha vida.

Sempre tiveste o hábito de ler? Houve algum escritor e/ou livro que te tenha moldado e influenciado, que tenha um pequeno papel no que és hoje enquanto leitora?

Para ser honesta eu lia bastante mais quando era pequena. Devorava bandas desenhadas da Walt Disney e livros de contos de fadas. Agora sinto-me mais “esquisita” na leitura. Adoro livros escritos na primeira pessoa, gosto de “ser” aquela personagem, de “viver” aquela história, no entanto, aprecio bastante Stephen King, Becca Fitzpatrick e de momento apenas li uma obra de Haruki Murakami que também adorei. 
Definitivamente, Becca Fitzpatrick é uma inspiração para mim! Adoro os livros dela da saga “Hush Hush”, acho que ela me influenciou bastante na escrita na primeira pessoa.

O que é que te faz escrever, o que amas na escrita?

Como todas as artes, o que eu mais amo é a liberdade de expressão. Quando escrevo posso ser o que eu quiser. Posso ser uma pessoa, um pássaro, um cão, um centauro, uma mesa, uma boneca, enfim… Não há limites. Quando se tem imaginação, o melhor remédio é mesmo a arte. 
O que me faz escrever é isso mesmo. É a minha vontade de sair de uma vida “aborrecida e banal” e entrar num mundo de mistério, romance, ação… o que eu quiser.  

O que te serve de inspiração? Uma imagem, um som, uma memória...

Existem várias coisas que me inspiram: a música, os meus sonhos, desenhos, outros artistas e séries/jogos favoritos. 
Primeiro a música. Devo dizer que apenas ouço música que faça “sentido”, ou seja, que transmita sentimentos e mensagens que eu me relaciono como por exemplo os “Muse”. Não há uma única música deles que eu ouça que não me faça sonhar acordada. Para além deles também adoro “Rammstein”;”Imagine Dragons”; “Powerwolf” e até “Eminem”.
Em relação aos sonhos, vou já confessar que muitas cenas que inseri na obra “Bonebreaker” foram fruto do meu inconsciente. Às vezes acordava e lembrava-me de certos sonhos, quando não me saiam da cabeça eu acabava por escrevê-las. Até cheguei a ter um sonho que está a ser uma inspiração para mim para outra história que vou escrever intitulada “Daisy” (aviso desde já que não faço intenções de publicar mais nenhuma obra tão cedo!).
De seguida, como não podia faltar: os desenhos. É algo que eu faço constantemente (não queiram ver a minha secretária!). Sempre gostei de desenhar, é algo que me dá bastante gozo e faz-me sentir tão livre quanto a escrita. A única diferença é que tenho mais facilidade em desenhar uma personagem ou um lugar, do que descrevê-lo (provavelmente é por isso que “Bonebreaker” não está brilhantemente escrito).
Por fim, outros artistas (incluindo músicos acima mencionados), e especialmente japoneses. Como adoro desenhar, sou viciada em “anime” e “manga”, que são os desenhos animados e banda desenhada japoneses. Dois grandes artistas que me marcaram desde pequena são Nobuhiro Watsuki e Hayao Miyazaki. A imaginação de ambos sempre me deixou fascinada. 
Ah! E em relação aos vídeo jogos, bem… eu também adoro! Mas não consigo jogar qualquer coisa, para mim o jogo tem de ter uma história que me deixe colada ao ecrã. Por exemplo o jogo de “Walking Dead”; podem achar que se trata apenas de zombies, mas não é bem isso. É tudo tão psicológico com uma história que verdadeiramente me inspirou e emocionou.

- Livro -



Bonebreaker é a tua primeira incursão na escrita, ou no passado já tinhas algum tipo de trabalho, como textos, contos, poesia...

Já fiz alguns trabalhos em termos de escrita mas todos eles escritos em inglês. Escrevi alguns versos mas não creio que seja uma boa poetisa (nem mesmo em inglês). Posteriormente escrevi um pequeno conto de terror (que ainda se encontra publicado no meu Deviantart), mas nunca foi nada que eu trabalhasse arduamente. São simples “desabafos” do momento que decidi meter na internet e ler as opiniões dos meus seguidores. 

O que te levou a escrever Bonebreaker em específico?

Isto vai soar estranho, mas o que me levou a escrever a obra “Bonebreaker” foram as próprias personagens e a minha primeira paixoneta. Como todos os adolescentes, chegamos a um ponto da nossa vida que achamos que estamos completamente apaixonados por uma pessoa e não podemos viver sem ela. Bem, eu inicialmente criei a personagem Sara que, apesar de partilhar o mesmo nome que eu, a sua personalidade é diferente da minha. É como que uma outra pessoa desperta em mim. Decidi desenhá-la e, na altura, baseei Hugo numa velha paixoneta que tive. Com o tempo melhorei a personagem e alterei a sua personalidade para uma com que eu realmente achasse atractivo (tirando a violência, que NÃO é atractivo mas como eu e a outra “Sara” somos “pessoas” diferentes, eu deixei ficar).
Então comecei a publicar desenhos deles no Deviantart e os meus seguidores sempre me perguntaram qual era a história deles os dois e a verdade, é que nem eu sabia! Por isso, decidi avançar e dedicar-me a criar um passado e um futuro para as personagens.

Houve algum autor, ou algum livro, que te inspiraram durante o processo criativo?

Sim, em termos de escrita continuo inspirada pela Becca Fitzpatrick e para quem goste de romances supernaturais, recomendo a sua saga “Hush Hush”.

Tens algum personagem favorito no livro? E um menos favorito?

No livro tenho duas personagens favoritas: Hugo e Mihael (não vou estragar já, para quem não leu ainda e dizer quem Mihael é), mas acredito que sejam os meus favoritos pelo gozo que me deu em criá-los. As suas personalidades para mim, são únicas e quando escrevo é como se estivesse a fazer múltiplos papéis numa peça de teatro. Entrar na “cabeça” deles foi o mais divertido. 
O menos favorito é um dos vilões, o tio de Hugo. Obviamente, vou contra as suas crenças acerca de lobisomens de sangue puro, mais acho que mais não posso contar.

Seguindo a linha da pergunta anterior, qual a parte do livro que mais gostas, que te deu mais prazer escrever? E qual a parte que menos gostas e que menos gostaste de escrever?

A que menos gostei de escrever foi o início. Tenho dificuldade em conseguir começar uma história e apresentar personagens sem tornar o livro maçador. 
Quanto ao que mais gostei é difícil escolher uma, porque eu adorei escrever várias cenas com Hugo. Desde algumas crises de ciúmes a ser protetor ou a ser narcisista. 

O Bonebreaker é um livro enorme, dividido em duas partes. Idealizaste o livro assim, ou quando te apercebeste já tinhas mais de mil páginas?

Isto é um pouco assustador mas o livro inicialmente tinha mais de seiscentas páginas em ficheiro Word no computador, mas eu reli e cortei imensas partes e alterei outras que fez com que ficassem quatrocentas e poucas páginas, o que, imprimido em livro deu aproximadamente as mil páginas (sem contar com o erro de impressão da editora no primeiro volume).
E agora respondendo corretamente à pergunta: quando me apercebi já estava a ficar uma obra enorme! Demorei imenso tempo a pensar num fim, mas tive de o fazer depressa antes que quisesse acrescentar ainda mais à obra. 

Costumas ler as críticas que fazem ao teu livro? Como lidas com as críticas negativas? Há algum aspecto no livro sob o qual as críticas negativas incidem mais? Qual a crítica positiva que mais vezes recebes?

Sim (pelo menos daquelas que tenho conhecimento). Bem, críticas negativas, claro que me deixam sempre desapontada comigo mesma, mas rapidamente volto a animar-me. Afinal é com elas que eu posso evoluir. Se me disserem que está tudo bem, tudo muito bonito, eu vou achar que não existem falhas naquela obra e por isso não vou melhorar e vou voltar a fazer tudo igual e a cometer os mesmos erros. Por isso, de certo modo, críticas negativas são construtivas e não levo a mal, até porque não sou nenhuma profissional, por isso prefiro “ouvir a voz da experiência” e tentar melhorar.
Não tenho bem a certeza, mas creio que o início do primeiro volume seja uma grande fonte de críticas negativas.
Até agora o que mais me costumam dizer é: “não consegui parar de lê-lo!” O que me faz bastante feliz.

- Outras Coisas -

Black Black Heart by heartandbonebreaker
Black Black Heart, de Sara Reis

Quando li o Bonebreaker, a personagem da Sara desenhava muito bem... E pensei que talvez fosse um bocadinho de ti na personagem. Pelos vistos não me enganei :) Como entrou o desenho na tua vida?

É verdade! A minha irmã mais velha foi quem me iniciou a desenhar. Nós costumávamos ver desenhos animados juntas, um deles era “Rurouni Kenshin” (conhecido em Portugal como “Samurai X”, criado por Nobuhiro Watsuki), e ela costumava desenhar a personagem principal e desenhava bastante bem. Eu adorava a série e comecei a querer ser como a minha irmã. Também queria desenhar assim, mas eu só tinha seis anos e rapidamente percebi que não estava ao nível dela. Então decidi empenhar-me e desde então passava as aulas na última mesa da sala, perto da janela a desenhar. Rapidamente percebi o quão gostava de o fazer. Mesmo que estivesse mal feito, era uma liberdade de expressão, uma forma que eu tinha de “viajar” acordada. A partir daí nunca deixei de o fazer e é a minha grande paixão.

Costumas desenhar as personagens antes de lhes dar vida na escrita?

Sim, sempre. Às vezes sinto-me inspirada para desenhar algo diferente. Rapidamente esboço uma cara, depois penso no cabelo (a parte mais divertida), e por fim levo semanas, às vezes meses, para construir uma personalidade. Depois desse passo basta ouvir música ou estar a olhar pela janela e imagino certas cenas acontecerem. Costumo anotá-las e mais tarde desenvolver a ideia, a menos que tenha uma melhor entretanto.

O que estás a ler neste momento? E a desenhar?

Neste momento estou no terceiro livro da saga “Hush Hush”, chama-se “Silêncio”. Já saiu há algum tempo mas só consegui pôr as minhas mãos nele e no último volume recentemente. 
Em relação aos desenhos é mais complicado dizer. Ontem por exemplo desenhei cães (devido ao recente falecimento do meu melhor amigo canino), hoje já desenhei “fanart”, Sara, Hugo e Gabriel, e quem sabe daqui a pouco não vá acabar algum desenho mais antigo que está no monte que tenho na secretária. 

Há algum livro novo no horizonte? Podes adiantar-nos alguns pormenores deste novo trabalho?

Na verdade tenho uma nova ideia (até já pensei no título sem sequer ter escrito duas páginas!), mas não sei se a vá publicar. De qualquer forma se não for em livro com certeza publicarei no Deviantart. O título seria “Daisy” pois a história é trágica e gira em torno de uma senhora chamada Daisy. Porquê trágica? Porque sonhei com a cena toda e a partir daí “construí” certos acontecimentos que dariam para escrever uma história com nexo. 
Assim, “por alto”, será uma história na primeira pessoa em que essa personagem (neste caso o leitor, e ainda não pensei num nome para ela), é forçada a inscrever-se no exército porque o seu país está em guerra, só que, ela não tem grande jeito para isso. Em vez de ajudar só atrapalha, até que um dia ela e muitos outros homens e mulheres do exército são chamados para uma “missão especial”. À porta da carrinha que os levará encontra-se Daisy que chora, despedindo-se do seu marido. Após alguns homens tentarem animar a situação, a carrinha parte deixando Daisy para trás, mas enquanto esperam para chegar ao destino, a personagem principal percebe que todos na carrinha tinham algo especial: problemas de saúde. Ao chegarem percebem que não é nenhuma missão especial, mas sim uma cilada. O que acontecerá ao marido de Daisy e à personagem principal? Isso não posso adiantar para não estragar o suspense. 
Outro projeto que quero avançar, não está cem por cento ligado à escrita mas é algo que sempre quis tentar: uma “manga” (banda desenhada japonesa). Já comecei a trabalhar nela mas isso não quer dizer que vá para a frente ou que seja publicado, mas com certeza darei novidades no Deviantart. 

Últimas palavras para leitores, futuros leitores, curiosos...

Nunca desistam dos vossos sonhos! A vida é demasiado curta para desistirem daquilo que gostam :)

***

E aqui fica a entrevista com a Sara, e espero que gostem, pois eu certamente adorei entrevistar a escritora! Não se esqueçam de dar uma vista de olhos e, quem sabe, ler o livro Bonebreaker (Goodreads) e aproveitem para conhecer o seu trabalho no mundo do desenho! Visitem o Deviantart aqui, e deliciem-se com os desenhos fantásticos que enchem a sua página, e nesta galeria podem encontrar algumas das personagens do livro. Façam ainda um gosto na sua página do Facebook, aqui.

2 comentários :

  1. Olá,

    Bem é enorme, a ver se arranjo tempo para ler com calma, mas o desenho está muito giro :D

    Parabéns pela divulgação de escritores nacionais ;)

    Bjs

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    1. Gostei muito de fazer esta entrevista, deu-me imenso gozo! Quero fazer mais, o meu maior problema é nunca saber muito bem o que perguntar :P

      Beijinhos

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Obrigada por comentares :)