Os Anjos Morrem das nossas Feridas, de Yasmina Khadra - Opinião [Bizâncio]

fevereiro 11, 2014

Título: Os Anjos Morrem das nossas Feridas
Título Original: Les Anges Meurent de nos Blessures
Autor: Yasmina Khadra
Editora: Bizâncio
Ano de Publicação: 2013
Número de Páginas: 336

O que me levou a ler Os Anjos Morrem das nossas Feridas foi a torrente de elogios que lhe tem sido feita nos últimos tempos. A história que a sinopse prometia não me parecia propriamente apelativa, mas para tanta gente gostar deste livro, então alguma coisa de boa ele tinha de ter. Foi então que decidi lê-lo.

As minhas desconfianças em relação a este livro dissiparam-se logo com as primeiras páginas: a escrita de Yasmina Khadra tem esse poder. Acredito que mesmo que a história de pouco valesse, a sua leitura seria sempre bem-vinda, tal o encanto e beleza presentes na escrita. E não se tratam de frases-feitas, nem de ideias que giram sobre si e vão dar sempre ao mesmo, embelezadas. Não. São sim verdadeiras reflexões, escritas com uma sensibilidade enorme, uma consciência elevada, que nos faz ficar irremediavelmente presos às linhas e páginas.
Os Anjos Morrem das nossas Feridas começa com Turambo, narrador e personagem principal, na iminência da morte. A partir daí vê a sua vida em retrospectiva, e assim ficamos a conhecer o seu passado. Gostei da forma como o livro se encontra dividido, consoante as mulheres da vida de Turambo. São poucas, Nora, Aïda e Irène, e à medida que vão ganhando espaço nas páginas, Turambo cresce, em todos os sentidos. Cada mulher marca uma fase da sua vida, que ele guia de acordo com o que o seu coração sente. Vêmo-lo passar de uma criança pobre mas cheia de sonhos e esperança para alguém que quer tomar conta do seu destino, disposto a sacrificar aquilo em que acredita ou os que mais gosta para poder viver como deseja. É uma personagem muito boa, muito bem construída, mas que por vezes me irritou um pouco. A sua cegueira, ou a sua teimosia, resultavam em algumas acções que me aborreceram. Por exemplo, o que Turambo faz a Gino no final do livro é simplesmente terrível e injusto, e se não fosse a sua quase obsessão, nada teria acontecido.
Yasmina Khadra, para além de ser dono de uma bela escrita, tem o poder de criar personagens vibrantes e fortes, que quase se colam a nós. Para além de Turambo e Gino, várias outras personagens deste romance são igualmente bem desenvolvidas, mesmo que não usufruam de um papel principal. A mãe de Turambo, por exemplo. Sofre uma evolução enorme ao longo do livro, surpreendendo tudo e todos. Os amigos de infância de Turambo, os mafiosos que o rodeiam, até a mãe de Gino. É tudo uma prova de como o génio de Khadra não tem limites.
Há ainda algo nesta história que a torna mais vívida na imaginação do leitor: o autor aborda o tema do racismo (talvez por o ter sentido na própria pele?) de uma forma bastante interessante. Enquanto Turambo é pequeno, o racismo é mais cruel, mais directo, enquanto que em adulto já se torna um pouco mais geral, mais uma maneira de atacar do que propriamente julgar e marginalizar. Não é algo que domine o livro conscientemente, mas é algo que dá mais profundidade à personagem, tornando-a mais real, mais próxima. Os conflitos sociais descritos dão um ambiente bastante sombrio ao livro, mas ao mesmo tempo tornam-no vivo.

Eis um exemplo da escrita do autor. Não é nenhuma reflexão (senão nunca mais saíamos daqui), mas sim a descrição de uma personagem que aparece no livro, e é tão simples e tão belo quanto isto:

"Era um rapaz europeu, vestido como um príncipe, com o Verão no cabelo e o mar nos olhos."

É um livro a ler por todos, sem dúvida alguma. Um romance incrivelmente dramático, onde cada página ameaça a nossa consciência. Uma escrita sublime, uma personagem memorável, um fim triste, uma história quase demasiado real para ser inventada. Um autor a conhecer mais a fundo, com toda a certeza. Deixem-se levar pelas palavras de Yasmina Khadra e de certeza que não se vão arrepender. Leiam o livro e descubram por que motivo é que Os Anjos Morrem das nossas Feridas.

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2 comentários

  1. Viva,

    Bem parece estarmos na presença de um grande livro, se tiveres falta de espaço na estante diz que eu posso guardar-to :D

    Registado ;)

    Bjs e boas leituras

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    Respostas
    1. :) É de facto um grande livro, quero muito ler outros do autor!

      Beijinhos

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Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.