segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Palácio de Inverno, de John Boyne - Opinião

O Palácio de Inverno
Título: O Palácio de Inverno
Título Original: The House of Special Purpose
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Ano de Publicação: 2010
Número de Páginas: 456

O tema do desafio Um Por Mês do Goodreads para o mês de Abril era um livro que tivesse um mês, um dia da semana ou uma estação no título. Foi assim que comecei a ler O Palácio de Inverno, mas ainda sem ter muita noção de quem era ou do que se tratava - tudo o que eu sabia é que precisava, e rápido, de encontrar um livro que servisse para este mês! Quando reparei que o autor já não me era desconhecido (John Boyne, escreveu O Menino do Pijama às Riscas) e que o livro falava sobre os Romanov, não descansei enquanto não dei a leitura por terminada.

E que leitura...

"Quero que você saiba... Quero que você saiba que, se quiser, pode ser meu irmão. Desde que você me deixe ser seu irmão."

Contado a dois tempos, Geórgui Danielovitch Jachmenev (Georgy Daniilvech Jachmenev, na versão original) abre a porta às suas memórias, da sua vida na Rússia, em Inglaterra e em França. Geórgui recorda como entrou na Guarda Imperial e se tornou o protector pessoal do herdeiro do Czar, e como se aproximou de Anastácia, durante os anos finais do império Romanov, e ao mesmo tempo conta o seu presente, a difícil luta que trava com a sua esposa Zoia, e como a sua vida passou da Rússia para França, e mais tarde para Inglaterra. A sua maneira de contar a história é bastante interessante, pois a linha cronológica que segue é, na maior parte das vezes, ao contrário, o que faz que com o decorrer da leitura, os acontecimentos entre Rússia/pós-Rússia se tornem cada vez mais próximos temporalmente e a tensão seja cada vez maior. Claro que, com o meu interesse no país, a parte que se passava em território russo foi a parte da história que mais me agradou, mas também porque me fez sonhar mais. Está escrita de uma maneira um pouco mais irreal do que as restantes partes, talvez por todo o esplendor e inocência associados a esses anos. Em território francês e inglês temos um ambiente literário mais hostil, real e com preocupações sérias.
O fim de O Palácio de Inverno, apesar de ser ligeiramente expectável, não deixou de ser uma surpresa. Uma surpresa um pouco de partir o coração - algo que se pode estender à recta final do livro. Lido com um aperto na garganta, desde o reencontro de Geórgui com Alexei até à última palavra, o livro torna-se numa leitura muito triste, por mais bonita que seja a história.

"Paramos e ficamos a contemplar a ponte, e sentimos uma onda de orgulho. Era uma boa coisa. Agora havia ligação com os que moravam na ilha. Não estavam mais sozinhos.
- Com licença - disse uma voz à direita. Viramos e vimos um senhor de idade, com um sobretudo grosso e cachecol. - Teria um fósforo, por gentileza?
- Desculpe, mas não fumo - respondi dando uma olhada no cigarro apagado que ele estendia em minha direcção.
- Aqui - disse Zoia, abrindo a bolsa e tirando uma caixinha; ela também não fumava, e fiquei espantado que ela andasse com fósforos, mas fazia tempo que o conteúdo da bolsa de minha esposa era um mistério para mim.
O homem pegou a caixa e agradeceu. Olhei à sua esquerda e notei sua companheira - sua esposa, supus - com os olhos fixos em Zoia. As duas tinham mais ou menos a mesma idade, mas, tal como minha mulher, a idade não diminuíra sua beleza. Na verdade, seus traços elegantes eram prejudicados apenas por uma cicatriz que lhe descia na face esquerda até um ponto logo abaixo da maçã do rosto. O homem, que era bem-apessoado, com cabelos brancos fartos, acendeu o cigarro, sorriu e agradeceu.
- Aproveitem a noite - disse ele.
Assenti e agradeci:
- Obrigado. Vocês também.
Ele se virou para pegar a mão da esposa e ela estava fitando Zoia com um ar de tranquilidade no rosto. Por alguns instantes, nós quatro guardamos silêncio. Então, finalmente, a mulher curvou a cabeça."

A maneira como John Boyne recriou esta cena foi uma das passagens mais bonitas do livro. O autor não deixa pontas soltas, mesmo as que desaparecem da memória dos leitores. Um exemplo disso é o porquê de Geórgui acender uma vela, todos os anos, no dia 12 de Agosto.

"- Sim, claro. Todos os anos, no dia 12 de agosto, vou fazer isso. Enquanto eu viver."

São pequenos pormenores, mas que tornam a leitura mais completa, uma experiência mais única. E depois temos também a maneira como o autor cria as personagens. Geórgui cativa o leitor facilmente, mas Zoia... apesar de tudo o que acontece com Zoia (que não posso dar um único exemplo, pois é tudo importante no desenvolvimento da trama), algo em mim não conseguiu sentir por ela a empatia que talvez merecesse. A sua atitude de "eu não sou boa para ninguém, ninguém se devia aproximar de mim" chateou-me um bocadinho. É compreensível mas... tornou-se irritante.
Outro ponto bastante importante em O Palácio de Inverno é o seu rigor histórico. Tanto quanto pude apurar com algumas pesquisas, a descrição da vida da família imperial e da revolução está muito próxima da verdade. O próprio destino de Rasputin. E apesar de não se poder afirmar que tem 100% de rigor histórico, tem um suficiente para ser quase educacional, e é sempre bom ler um romance histórico no qual possamos confiar.

Aconselho vivamente este livro. Não tem comparação com O Menino do Pijama às Riscas, que, apesar de ser também muito bom, é, na minha opinião, imensamente inferior. Para quem tem curiosidade, fascínio, gosto pela Rússia, esta é sem dúvida uma leitura obrigatória, sobre um tema tão importante. Uma escrita soberba e uma história emotiva, que não deixa ninguém indiferente, O Palácio de Inverno foi uma surpresa maravilhosa.

2 comentários :

  1. Tenho este livro na minha estante.Tenho de o ler um dia, adoro a Rússia:) Beijos

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    Respostas
    1. Então tens mesmo de ler! =D É tudo tão bonito... País, livro, escrita, personagens, é tudo bonito :)

      Beijinhos

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