sexta-feira, 2 de maio de 2014

Anjo de Cristal, de Beatriz Lima - Opinião

Anjo de Cristal - 2ª edição
Título: Anjo de Cristal
Autora: Beatriz Lima
Editora: Alphabetum Editora
Ano de Publicação: 2013
Número de Páginas: 157

Ganhei Anjo de Cristal num passatempo da editora Alphabetum, e estava com alguma curiosidade em relação ao livro. Não é todos os dias que se vê uma obra publicada aos treze anos, e eu mantive-me na expectativa, até conseguir ler o livro. Com a Maratona Literária de Abril, sob o tema de autores portugueses, surgiu a oportunidade, e assim dei início à leitura.

A história é interessante, apesar de alguns aspectos mais difíceis de engolir, tinha tudo para me conquistar: é passada durante a Segunda Guerra Mundial. Isto, em si, seria suficiente para me despertar a curiosidade em Anjo de Cristal, mas todo o interesse que eu podia ter foi sendo, pouco a pouco, destruído por algumas características do livro, as qual falarei mais à frente.

Primeiro, a história. Para se escrever durante a Segunda Guerra Mundial, penso que é preciso ter mais de treze anos. Ou isso, ou então fazer uma boa pesquisa e entender verdadeiramente o que se passou durante aqueles anos. Não se pode usar um marco da História mundial só porque roça o romântico, e nisto a autora falhou, pois as únicas referências a esta época é "a guerra", mas tirando isso podia ser numa França durante um período temporal muito vasto. Mas, tentando passar o rigor histórico à frente... a história tem alguns pontos altos, muitos pontos baixos. Provavelmente é reflexo precisamente da imaturidade da autora, que transporta parte de si para as páginas, mas isso acaba por tirar autenticidade ao livro. Quase que acaba por ser tudo cor-de-rosa demais. É uma pena, pois com um pouco de mais trabalho, podia ter uma história muito mais marcante. Se calhar, era preciso esperar apenas mais uns anos.
As personagens não são verosímeis, e algumas das suas acções e atitudes são muito pouco credíveis. Quando Anne Marie se despede de Peter, encontra por acaso Margarida na estação, na altura uma completa desconhecida; passadas umas horas, já estão a trocar segredos e a chamarem-se melhores amigas para a vida. Isto é algo que não me entra na cabeça; são mulheres adultas, não crianças, em tempo de dor e guerra, não andam a brincar às casinhas. Outro exemplo, quando Anne Marie conta a Luz a morte da sua mãe: para além de toda esta linha da história ser sem sentido nenhum, esta cena passa-se assim:

"- Luz. A tua mãe... ela...
- Ela o quê?
- Um dia... (...) A tua mãe morreu (...).
Ela começou a chorar, encostada ao meu peito.
- Lamento, a culpa foi minha.
- Não. (...) Agora já tenho uma mãe: tu."

Este diálogo é despropositado, incredível. Ninguém reage assim. Não me quero tornar maçadora neste aspecto das personagens, mas é sem dúvida algo no qual Beatriz Lima tem de trabalhar mais, muito mais. Criar personagens é um trabalho complicado, e adequá-las a um determinado grau de realismo ainda pior - mas é um trabalho que um escritor tem de ter, se quer que o seu livro tenha valor. Não se pode criar personagens que são assim só porque sim, há que dar-lhes vida, e eu digo isto enquanto leitora e aspirante a escritora. Sempre que crio uma personagem, revejo-a dezenas de vezes, numa só linha. Tem de ser algo que se vá entranhar no leitor, para o bem e para o mal. Mesmo que a linha da história não seja grande coisa, uma personagem inesquecível fica sempre. Há ainda uma pergunta que gostaria de perguntar à autora: porquê os nomes em português, inglês e francês, tudo na mesma zona de França? Ainda acerca dos nomes, tenho apenas duas coisas a dizer, que não carecem de explicação: "Luz do Meu Coração" e "Anne Marie Sweet Heart".

A sensação mais real que tive com alguma das personagens, foi com Anne Marie, e foi medo, pois na altura pareceu-me sinistra e estranha:

"Peguei no miúdo ao colo, como se fosse meu filho. Subi as escadas, silenciosamente, enquanto lhe acariciava os cabelos. Era como se ele fosse só meu. Quando cheguei ao quarto, meti-o dentro da cama, aconcheguei-o e beijei-lhe a face, que parecia de porcelana. Durante aqueles momentos, era como se fosse meu filho."

Primeiro, conhece o miúdos há umas horas (!!!!), e segundo, a repetição de querer que fosse filho dela... Fiquei com algum medo da personagem, e esperançada por uma possível faceta assustador e psicopata. E há outra parte, mais à frente, em que se corta acidentalmente, e provoca o sangue pois descobre que acalma a dor no coração... Indícios de algo mais, que poderiam ter feito de Anne Marie uma boa personagem.

Lamento afirmar mas, na minha opinião, o melhor do livro é mesmo o aspecto gráfico. É o primeiro livro que leio da editora Alphabetum e, se forem todos assim, então tenho de parabenizar a editora com tal elegância nas suas publicações!
Não posso deixar também de elogiar a escrita certinha e correcta da autora. Apesar de se notar a verdura, é uma escrita simples, fácil de entender e concisa. Por vezes o tom que Beatriz Lima imprime nas páginas varia, tornando o discurso confuso, quando deveria ser muito claro, pois é uma espécie de diário.

Eu não quero que o meu comentário seja lido no sentido negativo do só falar mal. Até porque acredito que Beatriz Lima tenha ainda muitas cartas a dar. E também porque senti uma espécie de ligação com a Beatriz, porque eu, com 13 anos, também escrevia. E se na altura tivesse tido oportunidade de ser publicada, delirava. E agora, onze anos depois, provavelmente abafava essas obritas publicadas, pois são muito, muito más - e na altura pareciam-me fantásticas. Leio coisas escritas há onze anos e tenho pena de mim própria, e tenho vontade de rir de mim própria. Mas não as ponho fora - as ideias, boas ou menos boas, estão lá, prontas para serem usadas e bem. Com isto, quero apenas incentivar a Beatriz a querer escrever mais e melhor, mas a saber esperar, pois tudo na vida se resolve.
Este comentário foi dos mais difíceis que já escrevi, pois eu queria falar bem, tão bem, por ser uma jovem autora, com quem tanto me identifiquei. É mais fácil falar bem do que falar mal, não é? Mas não é assim que Beatriz vai crescer como autora, se só lhe disser "olha, é giro, é passado durante a Segunda Guerra Mundial". Percebem onde quero chegar? Já tive oportunidade de ler mais algumas opiniões acerca deste livro e não são muito favoráveis... e eu acredito que, mesmo que a autora não aceite algumas críticas hoje, amanhã vai olhar para trás e dar razão a todas estas pequenas vozes.

Não aconselharia propriamente Anjo de Cristal, pelo menos a pessoas com mais de catorze anos. Abaixo dessa idade, parece-me bem, um livrinho cor-de-rosa, cheio de sonhos, amor, esperanças. É um livro que se lê incrivelmente bem, muito rápido (li-o numa questão de horas). No futuro, gostaria de ler Dependo de Ti, também da Beatriz, pois, como afirmei anteriormente, acredito que a autora tenha o talento necessário, só precisando de limar muitas arestas, e eu gostaria de saber se essas arestas já começam a ganhar forma.

4 comentários :

  1. Olá,

    Meu deus que pedalada e tanta mensagem nova, não sei como consegues :D

    Bem aqui está um livro que devo evitar, a minha carteira agradece-te o comentário e claro acho que estás a ser sincera e realista, é a tua opinião e está certo :)

    Bjs e boas leituras

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    1. Sabes que tenho muito tempo migo... e mesmo assim consigo andar com coisas atrasadas xD

      É, é uma pena, mas acredito que a autora consiga melhorar ^^

      Beijinhos

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    2. Olá :)
      Peço desculpa pela intromissão... mas não pude deixar de comentar, porque foi exactamente o que pensei sobre o livro! :(
      No entanto também acho que a autora tem potencial, só precisa crescer um pouco antes de enveredar por temas tão complexos!
      Para já devia escrever apenas coisas um pouco mais juvenis, mais actuais... enquanto vai crescendo e limando arestas!
      No entanto não posso deixar de lhe dar os parabéns... pela força... pela coragem... por perseguir e não desistir do seu sonho!
      Beijinhos e bom fim de semana

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    3. Olá Marg!

      Não tens nada de pedir desculpa e és sempre bem-vinda a voltar e comentar ^^
      Eu não podia estar mais de acordo contigo, e depois de uma breve conversa com a Beatriz, fico feliz por a autora aceitar e não criticar a crítica, pois eu realmente acho que potencial não lhe falta :)

      Beijinhos e uma boa semana!

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