segunda-feira, 2 de junho de 2014

Monday Madness #9


1. Cria uma personagem que tenha uma fobia estranha, e escreve uma cena em que obrigues essa personagem a enfrentar o seu medo.

Vladimir era um homem alto e cuja pele luminosa e rosto suave faziam qualquer mulher suspirar. Dono de um feitio dócil e irresistível, era visto entre os seus como um exemplo a seguir, pessoa com elevados valores, companhia sempre apetecível.
O que ninguém sabia era que Vladimir vivia com uma fobia que o esmagava de medo de cada vez que era confrontado com o objecto do seu temor. Desde pequeno que assim se sentia, e nunca conseguira alterar esse horror que espreitava a cada esquina, nem tampouco o desejara modificado. Estremecia só de pensar em tão vil objecto, senhor dos seus piores pesadelos e mestre na arte do disfarce: aparecia quando menos se esperava, umas vezes escondido por alguma carteira, outras a espreitar de sacos e malas, esparramado em montras ou solenemente guardado nos programas de televisão.
Esta fobia de Vladimir era, nada mais nada menos, do que livros. Vladimir morria de medo de tais conjuntos de folhas, medo esse incutido nas suas entranhas havia muitos anos, por algum santo ignorante que calhou de cruzar vidas com Vladimir. Por entre histórias de livros que sugavam pessoas a outros que as mordiam, o supra/sumo de tão terríveis contos era sobre um livro, cujo nome foi esquecido no tempo, que, imagine-se, permitia aos seus leitores sonhar, viajar, sentir. Que desgraça! Como se atreviam? E nessa noite Vladimir, com os pensamentos turvados pelo negro véu da ignorância, passou a temer esses objectos impuros, e esse medo foi-se enraizando cada vez mais no seu ser, a ponto de apenas a menção de um livro servir para o aterrorizar até às pontas dos cabelos. Quando ao acaso se encontrava, desgraçadamente, com algum desses tiranos, benzia-se e afastava-se o mais possível, sendo acometido pelos mais graves tremeliques e sentindo-se zonzo.
Um dia, Vladimir ia ao dentista, seu amigo de longa data, que sabia ser aspirante a poeta. Uma vez iam-se chateando por causa deste tema, tão sensível tanto a um como a outro, mas pelo bem das dentaduras, decidiram deixar uma pedra daquelas bem grandes sobre o assunto e esquecê-lo - algo que de facto aconteceu, pois Vladimir já nada se recordava dessa discussão, mas é importante mencioná-la pelos desenvolvimentos que a seguir ocorreram.
Ao subir o elevador do decadente prédio do dentista, Vladimir admirava-se ao espelho, ressentido por não saber apelidar-se de nada mais senão bonito, pois desconhecia outros sinónimos. Isto era um mal que por vezes atacava Vladimir, esta noção de que faltava algo, de que alguma coisa não estava completa, mas rapidamente lhe passava. Era bonito, e isso chegava - tanto a palavra como o seu significado.
Ding. O elevador atinge o quinto piso, abrindo a porta para a passagem do seu ocupante. A porta do gabinete está entreaberta, deixando escapar uma ténue luz e som algum. De certo estava outro paciente a ser atendido, e nada mais restava que não fosse sentar-se na minúscula sala de espera, composta por uma cadeira, um vaso, e onde mal cabia uma pessoa. A luz caía tristemente sobre tal paisagem, mas Vladimir ainda estava a cismar na sua beleza- e não na palavra - que a espera não o incomodava, de todo.
Ao início, com a luz fraca, não deu por ela. Mas à medida que se aproximava para se sentar na cadeira, ali estava ele. Um livro.

No pânico da fuga bateu a porta atrás de si, fechando-o num espaço tão claustrofobicamente pequeno com tão grande e poderoso inimigo. Ao ouvir o clique da porta, as palavras do seu amigo dentista ressoaram lhe ao ouvido, uma queixa feita há imenso tempo, reclamando como a porta não pode ser fechada por dentro, pois depois só abre por fora - graças a deus a minha mulher tem uma cópia, tornou-se, zombeteira, a voz da sua recordação.
O livro, esse, ainda lá estava, calmamente, sem se ter movido um milímetro que fosse, sem ter emitido um som.

Vladimir, aterrado, estava encostado à parede, com o silêncio do seu medo por companhia, emudecido, imóvel, percorrido por arrepios que o mantinham à tona, numa espiral de horror que o arrastava cada vez mais para um possível desmaio. No meio dos seus pensamentos gritados, pareceu-lhe ouvir um sussurro, quase desesperado, tão leve, quase a desaparecer... Por segundos, concentrou-se e o sussurro mantinha-se, incompreensível, mas quase hipnotizante. A sua respiração foi voltando ao normal, ou pelo menos não tão acelerada, e os suores frios que lhe inundavam as costas foram-se dissipando. O sussurro alterava-se, ora um sussurro gritado, ora um sussurro silencioso, e Vladimir sentiu-se sozinho, e mais do que isso, sentiu-se em branco, como se se visse pela primeira vez. Só existia ele e o sussurro, e então abriu os olhos, apercebendo-se que estes estavam firmemente cerrados - durante quanto tempo? A luz mantinha-se ténue mas palpitante, ou assim parecia. E o livro mantinha-se na cadeira, mas Vladimir podia jurar que estava fechado quando tinha entrado na salinha, e agora estava aberto, com as suas páginas languidamente abertas. Sem saber como, as suas pernas mexeram-se, obedecendo a algo que não a si - seria ao sussurro misterioso que ainda ecoava algures no tempo?

Dois passos e o confronto deu-se.Vladimir forçou-se a fechar os olhos mas na sua mente ficaram impressas letras, palavras, frases.

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.

Todo o seu ser se debatia perante tal ideia, tal descarada ideia. Abriu os olhos para que as letras desaparecessem, mas o sussurro transformou-se num grito dirigido ao seu coração:

Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.

Sem mais forças para resistir, Vladimir agarrou naquelas páginas, que tanto temor lhe causavam, e queria rasgá-las, despedaçá-las, queimá-las... mas não conseguiu nada disso. Ao invés, deu por si a encostar o livro ao peito, quase a embalá-lo, chorando, deslizando até ao chão, e aí ficando, sendo atravessado por ondas de mar geladas.

Sem comentários :

Enviar um comentário

Obrigada por comentares :)