A Guerra do Salavisa, de J.F. Matias - Opinião [Marcador]

agosto 22, 2014

A Guerra do Salavisa
Título: A Guerra do Salavisa
Autor: J.F. Matias
Editora: Marcador
Ano de Publicação: 2014
Número de Páginas: 268

A Guerra do Salavisa foi uma leitura sugerida pela editora Marcador, e por isso estou-lhes grata, pois foi daquelas leituras surpreendentes e cujo prazer foi inesperado.

Temos uma história a dois tempos, duas gerações diferentes cujos percursos se cruzam não só por motivos familiares, mas também através de valores intrínsecos à vida: amizade, lealdade, perseverança. Salavisa avô, boémio, que se encontra metido sem saber como na Segunda Guerra Mundial e que com uma graça do destino trava amizade com um francês e com um alemão; Salavisa neto, que segue as pisadas do avô e vai estudar para França, fazendo grandes amizades. Duas histórias que se desenrolam recheadas de peripécias, não havendo momentos mortos.
J.F.Matias foi uma novidade para mim, e apesar de ter gostado do livro, a sua escrita nem sempre me agradou. No que toca à parte do Salavisa avô, o tom da história parece-me muito fabricado, o humor demasiado forçado, quase como se fosse uma tentativa de ser engraçado sem se notar que se está a tentar, e falhando redondamente. Senti uma grande discrepância entre a qualidade da narrativa e a forma como esta é contada, e confesso que esta primeira parte me aborreceu um pouco, sendo que na altura receei que a leitura estivesse condenada. Mas quando a história passa para o Salavisa neto parecemos estar diante de um novo J.F. Matias, quase como se estivéssemos perante dois escritores diferentes, ou duas histórias escritas em momentos muito díspares da sua vida. Foi uma mudança muito bem recebida por mim (não sei se os outros leitores terão experimentado o mesmo que eu), pois um livro que me parecia destinado a ser-me indiferente acabou por se tornar numa leitura bastante interessante.
Paradoxalmente ao que acabei de dizer, a parte da história que mais gostei foi a de Salavisa avô (o que vem acentuar a desilusão com a forma como está escrita). A sua inocência e desleixo são mais naturais do que os do neto, que me pareceu uma personagem mais pouco natural. A história de Salavisa neto aborreceu-me um pouco, pareceu-me trabalhada demais para lhe dar um relevo quase filosófico que não me agradou. Deu-me mais gozo a ler devido à forma como está escrita, mas aborreceu-me mais devido ao desenrolar da acção.
O que me leva ao ponto alto de A Guerra do Salavisa (que nome tremendo!): o final. Escritas e personagens à parte, este final está excelente, a verdadeira salvação do livro, o hastear da bandeira branca, rendendo-me à leitura. E não é o final perfeito, em que tudo é cor-de-rosa e todos acabam bem... mas é o final merecido, ideal, quase a recompensa no final da leitura.
Outro factor de destaque neste livro é a forma como mostra que não é preciso uma grande história de amor ou uma batalha épica para se criar uma boa história. J.F. Matias traz um livro que se destaca pelas suas lições de vida, à volta da amizade e da fidelidade, da realização pessoal, da sinceridade e dedicação.

Recomendo a leitura de A Guerra do Salavisa, uma aventura de duas histórias próximas e no entanto tão longe, com protagonistas que se completam, e um final verdadeiramente perfeito.

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2 comentários

  1. Ois,

    Bem mais um bom livro da marcador, pelo que percebo anda a Editar bons livros, registado ;)

    Bjs e boas leituras

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    1. Sim amigo, têm um catálogo bem interessante :D

      Beijinhos

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Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.