Um Conto, Um Ponto #26: Triste e Leda Madrugada, de Carina Portugal

setembro 14, 2014

Triste e Leda Madrugada
Título: Triste e Leda Madrugada
Autora: Carina Portugal
Editora: -
Ano de Publicação: 2012
Número de Páginas: 3

A Madrugada é a fronteira entre a Noite e o Dia, o instante em que ambos se tocam, antes de a Noite se esconder. O que acontecerá durante essa fracção de tempo?

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Isto. Isto. Isto, isto, isto, isto. É isto. Não há palavras que descrevam este conto, de longe um dos meus preferidos da autora. É tudo demasiado belo. Não consigo encontrar palavras que me satisfaçam, portanto irei transcrevê-lo aqui, esperando que a Carina não se importe.

O canto das aves imiscuía-se no raiar do Sol e eu, sentada à beira do precipício, observava como o céu se matizava com o passar dos minutos. Era uma visão digna dos deuses.
– Em que pensas?
– Não tenho a certeza. Acho que penso em nada – respondi, cruzando as pernas. – Penso em nada para poder sentir tudo. Faz sentido?
Ao meu lado, a bela jovem abanou a cabeça. Os seus cabelos eram de puro ouro, revoltos e reluzentes. O rosto revelava-se uma mescla estranha de expressões que se harmonizavam – parecia simultaneamente triste e alegre. Mas, para mim, isso também não fazia sentido.
– Então, diz-me o que pensas – pedi, com um sorriso curioso.
Ela hesitou um pouco, levando um dedo ao queixo enquanto meditava.
– Penso que não penso. Penso que pensar destrói, penso que te estou a destruir ao pensar, por isso não vou pensar mais – respondeu, com um sorriso demasiado feliz para se coadunar com as suas palavras. – Se pensar demasiado, a vida morrerá nesse pensar.
Fiz uma careta de desgosto. As reflexões dela criavam-me nós na mente, e depois tinha de passar todo o dia a tentar desfazê-los. Era sempre assim.
– Mas, se não pensares de todo, a vida não chega a nascer sequer – notei, perguntando-me o que iria ela responder àquilo.
Vi-a ficar novamente pensativa. Quanto mais pensava, mais os cabelos cresciam, alargando-se pela superfície em seu redor, mergulhando no penhasco, sem medo. Quando senti que uma madeixa me tocou a mão, estremeci por dentro, sofrendo a sua queimadura na pele e na alma.
– Porque me fazes perguntas tão difíceis? Já disse que não quero pensar. Estou a magoar-te – concluiu, sem deixar de sorrir, mas ainda assim com tristeza no olhar.
Encolhi os ombros. Não era nada de novo, só significava que estava na minha hora de recolher, que precisava de me afastar. Mas só depois de sentir um pouco mais daquela dor. Queria que ela pensasse. Queria uma resposta. Insistiria até à eternidade se fosse necessário.
– Não faz mal. Continua a pensar – pedi simplesmente, observando-a. Mas até olhar para ela já me magoava.
E ela pensou, pensou até os seus cabelos se perderem no horizonte, pensou até eu sentir o corpo tremer. Quando dei conta de que já não aguentaria mais aquele tormento, fechei os olhos.
– Volto amanhã e esperar-te-ei aqui, à mesma hora. Não faltes e traz-me a tua resposta – volvi, deixando-me cair do penhasco com um mero impulso, como se se tratasse da brisa do vento. – Não faltes, Madrugada.
Senti o seu olhar, até me perder de vista na escuridão daquele abismo.

– Até amanhã, Noite – chegaram as suas palavras até mim, antes de me sentir a adormecer. Ela já pensara o suficiente para que a vida nascesse e seguisse o seu trilho sinuoso.

Perfeito.

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1 comentários

  1. Não me importo nada, Nádia ^_^
    Fico muito contente que tenhas gostado tanto!

    Beijinhos

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Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.