domingo, 16 de novembro de 2014

Saída de Emergência - Entrevista a Sónia Louro - Pt. I

Este mês foi lançado o livro Fernando Pessoa - O Romance, e a editora Saída de Emergência entrevistou a autora da obra, Sónia Louro. Até quarta podem ler no Eu e o Bam aos poucos essa entrevista, mas, primeiro, vamos passar à apresentação do livro.


O primeiro romance biográfico de Fernando Pessoa. 

Este é o romance biográfico de Fernando Pessoa, o poeta que foi muitos poetas. Órfão de pai aos cinco anos de idade, cedo perde a atenção da mãe quando esta volta a casar. Forçado a partir para a distante África do Sul, onde o nascimento de irmãos o isolam ainda mais, refugia-se em si mesmo e aí cria novos mundos. 
No fim da adolescência regressa a Lisboa, na vã tentativa de resgatar os poucos momentos da vida em que fora feliz. Aí conhece personalidades do mundo das artes e da literatura, como Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro ou Adolfo Casais Monteiro. É um dos fundadores da Orpheu, uma revista artística que foi recebida com escândalo pela crítica. 
Correspondente comercial, inventor, tradutor, editor, publicitário e astrólogo, Fernando Pessoa procurou várias formas de ganhar a vida. E até o amor lhe bateu à porta quando conheceu Ophélia Queiroz. 
Fernando Pessoa, O Romance é uma obra magnífica, fruto de uma pesquisa meticulosa, e uma verdadeira homenagem ao maior poeta da língua portuguesa. Um poeta que Sónia Louro consegue dissecar, desvendando os seus segredos, medos, sonhos e, mais importante, a sua humanidade.

***Entrevista***

Primeira Parte
Escrever Pessoa

Fernando Pessoa é um dos poetas mais célebres do mundo da lusofonia. Ainda havia, durante o processo de escrita deste romance, facetas desconhecidas do poeta?

Creio que todas as personagens têm facetas desconhecidas e muitas vezes não é porque sejam ocultas, mas simplesmente porque nunca foram todas compiladas na mesma obra e o conhecimento do público acaba por ser sempre fracionado.

Os aspetos místicos e os princípios alquímicos foram alguns dos muitos interesses de Pessoa – procurou focá-los na obra?

Sim, nem poderia ser de outra forma. Para alguém que dedicou tanto do seu tempo a tentar ver nos astros e nos espíritos o que o futuro lhe reservava, omitir essa faceta do poeta no seu romance biográfico era como amputar-lhe um braço num retrato a óleo.

Controlou de alguma forma as personagens da obra ou já tinha, desde o início, vida própria na narrativa e Sónia apenas relatava?

Eu tentei controlá-las. Juro que sim. Mas um dia, Álvaro de Campos mostrou-me o caminho e eu percebi que tinha de alterar o que já estava escrito, pois além de vida própria, eles tinham até vozes próprias e tudo o que diziam no romance já eles o tinham dito antes… Era só preciso lê-los, ou seja, voltar a ouvi-los.

Que autores, além dos de pesquisa bibliográfica, a inspiraram e influenciaram para conseguir incorporar a figura de Fernando Pessoa?

Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis, Álvaro de Campos… É que além dos autores de pesquisa bibliográfica, como bem refere, Fernando Pessoa já é/era muitos, e todos tão ricos que não havia necessidade de aumentar o rol.

Tem algum ritual de escrita que queira partilhar?

Não tenho propriamente nenhum ritual de escrita. Não sei… Escrever é natural para mim, tal como será para os escritores no geral. Quem tem sede, bebe água…Um escritor precisa escrever, logo escreve. Se encher o copo de água for o ritual, então teclar é o meu.

Ouvia música a escrever? Qual a música que identificaria com Fernando Pessoa – e/ou com os heterónimos?

Não oiço música quando escrevo. Gosto do silêncio. Não identificaria exatamente uma música com Fernando Pessoa, mas identificaria uma intérprete e também autora, Amália Rodrigues, que, por sua vez, se identificava com algumas das coisas que ele escrevia. E, por vezes, em letras de fado dela, parecia-me ouvir um eco de Fernando Pessoa ou até em entrevistas a Amália. Por exemplo, Bernardo Soares disse, no Livro do Desassossego: “Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela”. Amália costumava dizer: “Eu não vivi a vida, ela é que me viveu a mim”. Portanto, há algo de Fernando Pessoa em Amália, logo nos fados também.

(...)

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