domingo, 7 de dezembro de 2014

Leituras Lusófonas #1



Nova rubrica! Assinada pelo Paulo, convidado do Eu e o Bam, para sair aos Domingos. Quando calhar...

"Pretende-se neste espaço dar a conhecer nomes grandes da literatura Portuguesa/ Lusófona, cujas obras reflictam não só o seu valor intrínseco , mas também valores históricos e sociais, bem como valores identitários da cultura lusíada.

Começo pois por recomendar uma obra que percorre grande parte da minha vida, lida e relida com renovado deleite. É ela " A cidade e as Serras", de Eça de Queiróz. Além da genialidade pura e da mestria com que o escritor dispõe das palavras, criando dessarte momentos de rara elevação literária, perpassa por todo o texto uma dualidade de ambientes, momentos e estados de espírito merecedores de análise e reflexão.

A narrativa centra-se na história de Jacinto de Tormes, português radicado em Paris. Fervoroso apologista do meio urbano, do progresso técnico e científico, apresenta uma vida pautada por conforto e prosperidade, rodeado, na sua morada do 202, das mais recentes inovações tecnológicas surgidas no séc. XIX.
Não pode Jacinto de Tormes conceber a vida sem a indispensável presença dos "teatrofones", elevadores e água canalizada aquecida. A Cidade é, assim, o único meio onde o Homem, ser civilizado e diferente dos demais seres vivos, superior a eles, pode viver. Em antítese, a vivência dos meios naturais, campestres e rurais, afigura-se-lhe absolutamente intolerável. Horrorizado com a humidade das ervas, dos ruídos e manifestações da Natureza, Jacinto foge-lhes com convicto repúdio.
Sucede, sem embargo, que este homem civilizado se vê forçado a vir a Portugal, a uma propriedade de família, para fazer trasladar os ossos dos seus antepassados. Desafortunadamente, depois de uma confusão com as bagagens, encontra-se Jacinto num meio rural, sem nenhuma da parafernália de objectos que pretendiam tornar-lhe a estadia na casa de Tormes suportável.
Ocorre então uma mudança radical no espírito do nosso personagem. Eis que Jacinto, homem do mundo e da civilização, definha em Paris. Corcova, envelhece e cai numa letargia paralisante. E eis que Jacinto, em perfeita antagonia com tudo o que pensava ser evidente e imutável, é feliz em Tormes. Polvilhada com tão-somente alguns objectos de modernidade, a sua nova casa, física e espiritual, é o Portugal profundo, serrano, natural e laborador. Fica para trás o português "afrancesado". Surge com renovada força o português enraizado. 

Narrado por outra personagem- o seu amigo Zé Fernandes- que aparece amiúde como moderador dos ímpetos de Jacinto,o romance encerra um debate violento entre a artificialidade e o essencial. Lutam sem quartel em grande parte do romance, a sedução ruidosa do movimento e a placidez benévola da naturalidade. O desenraizamento e o contrastante apelo telúrico. O combate feroz, afinal, da superficialidade contra a genuinidade.

Deixando de fora desta recomendação os personagens secundários, mas que em Eça assumem crucial importância para a coesão e verosimilhança do todo, aconselho vivamente este romance, em que podemos sentir o cheiro da máquina e o da terra, da lonjura e da cercania, da partida e do regresso."

Foto daqui

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