quinta-feira, 23 de abril de 2015

Memnoch, o Demónio, de Anne Rice - Opinião

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Título: Memnoch, O Demónio
Série: Crónicas Vampirescas
Autora: Anne Rice
Editora: Rocco
Ano de Publicação: 2010
Número de Páginas: 348

Depois de tantas aventuras vividas por Lestat, já pouco lhe restava experimentar; e eis que Anne Rice invoca Memnoch, o Senhor do Inferno, que, com o intuito de tornar Lestat o seu Príncipe, leva o amado vampiro numa viagem extraordinária.

"Eu me considero moralmente complexo, espiritualmente sólido e esteticamente pertinente, um ser de um impacto e uma visão candentes, um sujeito que tem muito a dizer."

É assim que Lestat fala de si próprio, do jeito narcisista e quase pueril a que já estamos habituados. E então, já bem mais à frente no livro, surge Memnoch, em carne e osso, abanando mais uma vez a existência do vampiro.
Enquanto lemos, começamos a ter uma noção cada vez mais clara que todas as Crónicas foram escritas para este livro. Todas as aventuras, todos os dilemas, todas as morais teriam de levar a este desfecho. Apesar de ainda estarmos a meio da série, em Memnoch fecha-se um capítulo, encerra-se um ciclo, e supera-se. É, de longe, o mais pesado dos volumes, uma leitura bastante densa. É o apogeu filosófico e teológico de Anne Rice. E, pela primeira vez, tenho pena de não perceber mais acerca destes dois assuntos para assimilar melhor tudo o que é dito. De qualquer das formas, a ideia é perfeitamente recebida. Uma história soberba, que traz com ela uma mensagem poderosa.

"Eu queria seu sangue. Eu me alimento do sangue dos outros. É assim que me mantenho vivo e jovem. Você acredita em anjos? Então acredite em vampiros. Acredite em mim. Há coisas piores nesta terra.
(...)
- Nosferatu - disse eu, com delicadeza. - Verdilak. Vampiro. Lamia. Morto-vivo. - Dei de ombros, abanei a cabeça. Sentia-me totalmente desamparado."

Lestat continua a aparecer em toda a sua beleza e destruição. A sua compaixão e a necessidade de respostas preenchem parte do livro, até que o momento aguardado chega: Memnoch é apresentado.

"- Memnoch - corrigiu-me ele. - Não use o nome Satã. Por favor. Não use nenhum dos seguintes nomes: Lúcifer, Belzebu, Azazel, Sammael, Marduk, Mefistófeles, etc. Meu nome é Memnoch. Você logo vai descobrir sozinho que os outros representam várias concessões feitas a alfabetos ou às escrituras. Memnoch é para hoje e para sempre."

E assim, também nós somos delicadamente puxados para a intrincada teia de Memnoch. E que teia!
A própria forma como Anne Rice conta a história e a desenvolve é muito bem conseguida. Aquando da viagem ao Paraíso, é tudo muito calmo e claro; à medida que se vai descendo, o tom da narrativa fica mais bruto, confuso, quase caótico.
As Treze Revelações da Evolução são das coisas mais interessantes e deliciosas que li nos últimos tempos.
"A Primeira Revelação foi a transformação de moléculas inorgânicas em orgânicas... da rocha para a ínfima molécula viva, por assim dizer."
"E, enquanto observávamos, surgiu uma Segunda Revelação. As moléculas começaram a se organizar em três formas de Materiais: células, enzimas e genes."
"Começamos a ver o início da Terceira Revelação. No entanto, ela só nos atingiu em cheio quando os primeiros organismos animais se distinguiram dos vegetais.
  — Enquanto observávamos seus movimentos bruscos e determinados, com sua variedade de opções aparentemente maior, vimos que a centelha de vida que eles apresentavam era de fato muito semelhante à vida que tínhamos dentro de nós."
"A Quarta Revelação é a que eu chamo de Revelação das Cores, e começou com o florescer das plantas. A criação das flores, a introdução de uma forma totalmente mais extravagante e visivelmente linda de reprodução entre organismos."
"A Quinta Revelação foi a da Encefalização. Algum tempo antes, os animais se haviam diferenciado das plantas dentro d'água, e agora essas criaturas gelatinosas estavam começando a formar sistemas nervosos e esqueletos."
"E então, mesmo antes que os répteis começassem a sair rastejando do mar para a terra, mesmo antes que isso acontecesse, surgiu a Sexta Revelação, que despertou em mim nada menos do que horror. Essas criaturas, com suas cabeças e seus membros, não importa o quanto fossem absurdas ou diversas em suas estruturas, essas coisas tinham rosto!"
"— A Sétima Revelação foi que os animais saíam do mar. Que eles entravam nas florestas que agora cobriam a terra e descobriam como viver ali."
"— Voltei a descer à Terra. E então surgiu a Oitava Revelação da Evolução: o aparecimento de aves de sangue quente com asas providas de penas!"
"— A Nona Revelação da Evolução foi dolorosa para todos os anjos. Ela era puro horror para alguns e medo para outros. Na realidade, era como se a Nona Revelação espelhasse para nós as próprias emoções que despertava no nosso coração. Tratou-se do surgimento dos mamíferos na terra, mamíferos cujos horrendos gritos de dor se elevavam mais até o Paraíso do que qualquer barulho de sofrimento e morte que qualquer outro animal jamais havia emitido!"
"— Afinal a Décima Revelação da Evolução. Os primatas andavam eretos! Aquilo não era um arremedo do próprio Deus! Lá estava ele, em forma peluda e brutal, a criatura ereta de duas pernas e dois braços em cuja imagem nós havíamos sido feitos! Graças aos céus, faltavam-lhe as asas."
"— Significava muitas coisas — sussurrou ele, agitando o dedo para dar ênfase —, pois esse ritual do enterro veio acompanhado de um relacionamento que raramente, se é que alguma vez, havíamos testemunhado em qualquer outra espécie por mais do que um instante: o cuidado dos fortes para com os fracos, a ajuda e alimentação dos inválidos pelos válidos e, finalmente, o enterro com flores. Lestat, flores! Flores eram dispostas de uma extremidade à outra do corpo depositado com carinho na terra, de tal modo que a Undécima Revelação da Evolução foi que o Homem Moderno havia começado a existir."
"— A Duodécima Revelação da Evolução foi a de que a fêmea da espécie humana começava a se diferençar mais nitidamente do macho da espécie num grau tão alto que nenhum outro antropóide conseguiu igualar!"
"— E logo fez-se conhecer a Décima Terceira Revelação da Evolução. Os machos copulavam com as fêmeas mais bonitas, com as mais ágeis, as de pele mais macia e de voz mais delicada. E dessas cópulas originavam-se machos que eram, eles próprios, tão bonitos quanto as mulheres. Surgiram humanos com aparências diferentes."

Todo este livro é um universo completamente diferente.

Memnoch, o Demónio é de facto o fechar de um capítulo. Vou fazer uma pausa - curta, espero - das Crónicas, pois sinto quase a necessidade de fazer o luto a uma parte da história que acabou. No entanto, a dor de terminar o livro com o suicídio de uma das personagens mais queridas é terrível. Anne Rice no seu melhor.

Mais um livro que se lê perfeitamente bem sozinho, mas que aconselho a série toda. Enfrentem Memnoch de coração limpo e mente aberta, pois lembrem-se... ele tem uma mente insone no seu coração e uma personalidade insaciável!

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