Que Esperam os Macacos, de Yasmina Khadra - Opinião [Bizâncio]

julho 23, 2015


  Que Esperam os Macacos
Título: Que Esperam os Macacos
Título Original: Qu'Attendent les Singes
Autor: Yasmina Khadra
Editora: Bizâncio
Ano de Publicação: 2015
Número de Páginas: 272

Que Esperam os Macacos seria um livro que, à partida, nada me diria; mas como poderia deixá-lo de lado, sendo assinado por Yasmina Khadra? Por muito que pouco me identificasse com o ambiente, sabia que seria uma leitura prazerosa.

O livro conta a história de um crime e de todos os segredos e tramóias que o rodeiam. Tudo isto, claro está, numa torrente crítica e acertada do dia-a-dia na Argélia. Tal como esperava, a história em si não me cativou propriamente; mas a forma como Khadra nos enfeitiça com as suas palavras é tão forte que se torna irresistível de ler. A Argélia que o autor invoca partilha as mesmas convenções, defeitos e qualidades a que eu já estava habituada depois da leitura de Os Anjos Morrem das Nossas Feridas. Atrever-me-ia a dizer, até, que nas suas linhas se denota todo o amor, rancor e desilusão que Khadra sente pelo seu país.
Achei a história um pouco confusa, com situações que andavam desnecessariamente à volta de si mesmas - fazer render o peixe, julgo ser a expressão mais adequada. No entanto, a morte de uma das personagens mais importantes apimenta a narrativa, tornado-a bastante mais interessante - e desde esse momento, torna-se imperioso acabar a leitura.

O facto de não ter adorado esta leitura prende-se mesmo com a forma como a história se desenrola. Sei que me repito, mas se não fosse a forma como o autor escreve, seria uma leitura muito pouco agradável. Há situações que penso que deveriam ter ficado melhor explicadas, e personagens que deviam ser mais trabalhadas... Aliás, se o autor cortasse no número de personagens para desenvolver algumas bem mais importantes, seria muito melhor. Mesmo o final do livro, bem mais emocionante que os restantes capítulos, amornece, pois afinal não se descobre nada propriamente novo.
Mais do que contar uma história, neste seu livro Yasmina Khadra dá um grito de revolta contra as injustiças da sua terra natal, mas penso que se prende demais a esse grito e menos ao facto de estar a contar uma história.

Apesar de ter gostado mais do outro livro do autor, não posso deixar de recomendar a leitura de Que Esperam os Macacos. Não me canso de elogiar o dom de Yasmina Khadra, com a sua voz fluída e familiar, que nos prende e hipnotiza. Leiam Khadra - vale sempre a pena. 

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2 comentários

  1. Ois

    Por acaso foi a minha mais recente leitura e adorei, um livro que nos mostra uma forma diferente do que estamos habituados a ler do escritor (este ano já li 4 livros dele) e embora não seja o meu preferido é um livro que tem tudo o que o escritor tem de bom, as personagens são interessantes, reais, crueis e aquele final está muito bem conseguido, depois a escrita, já o referiste e a forma como com um livro pequeno nos faz um retrato de Argel...está muito bom ;)

    Mas pronto termos visões diferentes do livro não é mau :D

    Bjs e boa semana

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    Respostas
    1. Olá Fiacha,

      Eu gostava de ler mais livros do autor, mas o ambiente que ele transporta não é o que mais me agrada. Ir lendo sobre a Argélia e todos os seus problemas basta-me de quando em quando :)

      Beijinhos

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Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.