[Opinião] Cartas de Profecia, de Anne Bishop | Saída de Emergência

janeiro 05, 2018

Cartas de Profecia (Os Outros, #5)
Título: Cartas de Profecia
Título Original: Etched in Bone
Série: Os Outros #5
Autora: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Ano de Publicação: 2017

Depois de uma insurreição humana ter sido brutalmente abortada pelos Anciãos – uma forma primitiva e letal de Os Outros –, as poucas cidades que os humanos controlam estão dispersas. Os seus habitantes conhecem apenas o medo e a escuridão da terra de ninguém.

À medida que algumas dessas comunidades lutam para se reconstruir, Simon Wolfgard, o líder lobo metamorfo, e Meg Corbyn, a profetisa de sangue, trabalham com os humanos para manter a frágil paz. Mas todos os seus esforços são ameaçados quando uma misteriosa figura humana aparece.

Com os humanos desconfiados em relação a um dos seus, a tensão aumenta, atraindo a atenção dos Anciãos, curiosos sobre o efeito que este predador terá na matilha. Mas Meg já conhece o perigo, pois viu nas cartas de profecia como tudo terminará: com ela ao lado de uma campa.

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Estava sensivelmente a meio desta leitura quando descobri que Cartas de Profecia é o último volume da série Os Outros - pelo menos com as personagens a que estamos habituados. Em Março sai Lake Silence, ambientado no mesmo universo, mas penso que será algo diferente. A seu tempo iremos descobrir. Foi um choque, pois não estava a ver maneira de tudo ficar resolvido em cerca de duzentas páginas, e devorei essas últimas páginas numa ânsia enorme de descobrir como tudo acabava.

A sinopse deste último volume é um bocado enganadora, pois a profecia da Meg aparece numa altura já tarde da narrativa, e há mais para contar do que apenas essa profecia. No entanto, e apesar de ter adorado o livro, acho que é grande demais, arrasta e prolonga a história por demasiado tempo, até chegar ao que verdadeiramente interessa. Não fosse a mestria de Anne Bishop a contar histórias e este livro tornar-se-ia uma leitura um pouco morosa pois passa muito tempo à volta do mesmo assunto - o que vale é que é tudo a um ritmo tão alucinante que na maior parte das vezes nem me apercebi das páginas a passar.
Gostei de ver neste último volume um retorno, de verdade, a Lakeside. Algo que me confundiu no segundo, terceiro e quarto volumes era a quantidade de personagens que de repente apareciam, quem era quem, quem estava onde, mas em Cartas de Profecia sente-se mesmo como o fechar de um círculo: tudo começou lá, expandiu-se para o mundo, e agora para o fim estamos de volta a Lakeside. Para mim é um ponto bónus enorme, pois as personagens que encontramos aqui são todas familiares isso tornou a minha leitura mais fluída.
O outro ponto alto é a personagem de Jimmy. Uma autora que consegue criar personagens tão memoráveis e mágicas, e ao mesmo tempo cria seres tão desprezíveis como Jimmy. É uma personagem bastante interessante, apesar da sua podridão, mas perceber como o seu cérebro funciona, ver as suas repercussões, foi das coisas que mais me agradou neste livro. O que me leva a pensar no destino de Clarence, e em como adoraria ler uma história na sua perspectiva de adulto. Mas voltando a Jimmy, apesar de ter gostado da personagem e da dinâmica que trouxe à história, nem sempre foi credível - como é que alguém diz o que ele dizia depois do que se passou em Namid? Mas, regra geral, é uma personagem que vale a pena conhecer, nem que seja só para a poder odiar do fundo do nosso coração.

E deixo-vos aqui um pequeno spoiler mas que muitos de vocês, que estão a acompanhar a série, já estão à espera: sim, há finalmente romance a sério neste livro. Mas acreditem que ainda vão ter de esperar muitas páginas para o encontrar! Ao fim de cinco livros, finalmente... obrigada Bishop. Essa era a cereja no topo do bolo.

Apesar da pressa de descobrir como tudo acabava, dei por mim a chegar às últimas dez páginas e, de cada vez que lia a folha seguinte, folheava de uma maneira super lenta, como se não quisesse acabar a leitura. É este o efeito que os livros de Anne Bishop têm sobre nós. Esta escritora continua a ser das minhas preferidas de sempre e, de série para série, de mundo para mundo, consegue sempre surpreender. Portanto, se pensam que já leram de tudo... experimentem esta série.

Os Outros mantém o paralelismo com o nosso mundo a um nível brutal. A cada página destes livros não conseguia deixar de pensar que a história era real - ou como seria fantástico se fosse real. De uma forma distorcida, gostava que fosse real, e que houvesse justiça realmente a ser feita, não só entre humanos, mas para com o planeta também.

Mais um trabalho soberbo de Anne Bishop, o qual aconselho vivamente a leitura. É uma série que foge ao romantismo e volúpia dos seus outros universos mas que traz, à sua medida, outro tipo de magia, com um mundo e personagens complexas e infinitamente interessantes, num ambiente bruto e real, e uma narrativa repleta de suspense, sentimentos e humor.

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.