[Opinião] Todos os Caminhos, de Clara Pinto Correia - 4Estações Editora

janeiro 24, 2018

Todos Os Caminhos (A Tirania da Distância #1)
Título: Todos os Caminhos
Série: A Tirania da Distância #1
Autora: Clara Pinto Correia
Editora: 4Estações Editora
Ano de Publicação: 2017

Estar sozinha na Califórnia podia ser uma tortura ou uma aventura, e eu sabia perfeitamente que isso só dependia de mim. Não era propriamente a América que podia apanhar-me de surpresa depois de lá ter vivido durante tantos anos que chegaram ao ponto de me darem marido e filhos. E muito menos os Americanos, que ainda por cima desta vez eram os mesmos que acabavam de reinstalar o Obama na Casa Branca, sendo que ainda por cima eu, agora, rumando como rumava ao Big Sur, estava perfeitamente consciente de que ia viver num dos sítios mais bonitos do Mundo, procurado incessamente como inspiração por comunidades de artistas que descobriram o sítio nas páginas magistrais e certeiras de Steinbeck, e deixaram na sua senda discípulos tão impressionantes como o Miller e o Kérouac. De qualquer maneira, metia-se pelo meio como autêntica novidade o efeito ambíguo de estar a ver Portugal de longe, e de assim em perspetiva eu começar a seguir a sequência de parvoíces que nos tinham deixado na penúria como se estivesse numa sala de cinema. Na dúvida, não me pus a extrapolar conclusões com ninguém. Nem comigo própria.

************

Parti para a leitura de Todos os Caminhos sem tentar criar nenhuma expectativa. Não conhecia a autora (só muito levemente o seu nome) e a história, apesar de não ter nada que me levasse a querer desesperadamente ler, tinha o seu quê de interessante. Apesar de não estar a contar com nada em específico, não deixei de me sentir algo desalentada com este livro - simplesmente acho que não o percebi como o pobre livro merecia.

A história gira à volta de M., da sua vida, numa jornada nostálgica e divertida pelas suas memórias e pela sua realidade, mais uma vez longe do seu ninho. Pouco mais há do que isto, e talvez eu esperasse algo mais palpável, do que apenas as suas recordações e considerações.
Foi uma leitura que ao início foi difícil de me manter presa a si - a forma como Todos os Caminhos está escrito foi estranha à minha alma de leitora, mas, sinceramente, é uma questão de adaptação. Depois de apanhar, finalmente, o ritmo, foi mais fácil folhear as páginas e conseguir entrar no mundo da autora.
O que me leva a outro ponto: desconheço por completo a vida da escritora, e não consigo deixar de acreditar que estamos em frente a uma obra extremamente biográfica, ou pelo menos parte dela. A forma como Clara Pinto Correia narra as aventuras de M. e apresenta os seus pontos de vista é de um modo tão íntimo, quase privado, que me deixou com essa sensação. Se tal não for verdade, então aplausos para a autora, pois conseguiu transmitir uma experiência tão próxima com a própria personagem, algo tão profundo, quase visceral, que o livro praticamente ganha vida. Se for, de facto, verdade, então querida Clara... que vida fantástica, com todos os seus altos e baixos, mas que jornada!

No entanto, este ponto de vista tão intenso foi o que salvou o livro na minha opinião. Sinto, verdadeiramente, que não estava na altura da minha vida necessária para o ler e realmente aproveitar a sua leitura ao máximo - daqui a uns meses, ou anos, certamente será alvo de uma re-leitura. O que, confesso, me entristece, pois sinto que há tanto que ficou por dizer entre mim e Todos os Caminhos que não estou disposta a deixá-lo ir ainda - daí o meu comentário inicial de não ter percebido o livro.

Este primeiro volume d'A Tirania da Distância é uma leitura madura e que não deve ser tomada de ânimo leve, mas certamente irá agradar a muitas pessoas - dêem-lhe uma oportunidade e, se não se sentirem convencidos, esperem mais um pouco e tentem de novo.

Obs.: Depois de escrever o meu comentário fui cuscar o livro ao Goodreads e ver as suas opiniões - parece que não estou sozinha na minha luta! Definitivamente, um livro para leitores "adultos" e que se sintam prontos para mergulhar de cabeça numa viagem espacial, temporal e com o seu quê de sentimental.

You Might Also Like

0 comentários

Obrigada por comentares :)

Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.