[Opinião] Fragmentados, de Neal Shusterman

março 28, 2018

Fragmentados (Unwind, #1)
Título: Fragmentados
Título Original: Unwind
Série: Unwind Dystology #1
Autor: Neal Shusterman
Editora: Novo Conceito
Ano de Publicação: 2015

Em uma sociedade em que os jovens rejeitados são destinados a terem seus corpos reduzidos a pedaços, três fugitivos lutam contra o Sistema que os “fragmentaria”. 
Unidos pelo acaso e pelo desespero, esses improváveis companheiros fazem uma alucinante viagem pelo país, conscientes de que suas vidas estão em jogo. Se conseguirem sobreviver até completarem 18 anos, estarão salvos. No entanto, quando cada parte de seus corpos — desde as mãos até o coração — é caçada por um Sistema ensandecido, 18 anos parece muito, muito longe. 
O vencedor do Boston Globe-Horn Book Award Neal Shusterman desafia as ideias dos leitores sobre a vida: não apenas sobre onde ela começa e termina, mas sobre o que realmente significa estar vivo.

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Uma sinopse interessante, um autor desconhecido, um livro desconhecido... no quê que isto poderia dar? Eu digo-vos: numa leitura fantástica. Sem expectativas nenhumas, este livro marcou definitivamente as minhas leituras e, apesar de ainda não ter pegado na sua continuação, espero fazê-lo em breve.

Fragmentados introduz uma realidade distópica sinistra, onde os jovens, se fugirem ao que é esperado deles, são fragmentados - basicamente, cortados aos bocadinhos, e cada parte do seu corpo é re-aproveitada por alguém que precise. Sendo assim, não são "abatidos" mas antes re-utilizados, podendo continuar a viver através dos seus membros nas mais diferentes pessoas. Conseguem compreender todos os problemas éticos e morais, e não só, que isto levanta? Brutal.
Gostei bastante do desenvolvimento da história e das personagens mas sobretudo as questões que este livro levanta são assustadoramente credíveis. Os jovens tornam-se descartáveis, sendo a decisão de serem fragmentados tomada pelos próprios pais, que mandam os filhos supostamente incorrigíveis para campos onde, qual Hensel e Gretel a serem engordados para depois serem comidos, são bem tratados até alguém querer uns olhos daquela cor ou umas mãos que saibam tocar piano. E o sistema de abandono de crianças? Neal Shusterman tem uma mente demasiado mórbida... e isso foi uma das coisas que eu mais adorei acerca do autor e o desenvolvimento do seu universo.
Toda esta facilidade de se livrarem dos miúdos torna a narrativa, em certos pontos, devastadora. Tão depressa estamos a ler página atrás de páginas de acontecimentos repletos de tensão e de repente somos presenteados com a história de alguém cujo destino é a Fragmentação pelos motivos mais tristes. Então, um livro com uma realidade sinistra e credível e que ainda consegue mexer com as nossas emoções? Que mais poderia pedir?
Ah, claro, romance. Tem de haver sempre! E apesar de não ser o ponto alto do livro, não me incomodou, de todo. Gostei de ver a forma como foi sendo construído e desconstruído (fragmentado, se quiserem ir pelas piadas fáceis).

Um livro brutal, uma leitura intensa e personagens bem construídas são uma receita de sucesso. Mas o pormenor do mundo criado por Shusterman, incrivelmente real, é o que definitivamente causa arrepios e me faz falar sobre este livro passados meses de o ter lido. Friendly warning: preparem o estômago para o destino de Roland.

Pensem comigo: é uma realidade distópica, onde o aborto é ilegal mas abandonar bebés é legal e decidir desmembrar um adolescente também é legal. Quão paralelo é isto à nossa realidade? Nem quero entrar na parte óbvia da discussão sobre o aborto, mas quantas pessoas não abandonam filhos, não vendem filhos, não se vêem livres de filhos de maneiras escabrosas?

Sem dúvida, uma leitura que recomendo vivamente. Vai-vos deixar a pensar, vai-vos assustar, mas vai-vos ficar na memória durante muito tempo.

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.