[Opinião] Margo, de Tarryn Fisher | Saída de Emergência

março 09, 2018

Margo
Título: Margo
Título Original: Marrow
Autora: Tarryn Fisher
Editora: Saída de Emergência
Ano de Publicação: 2017

Em Bone há uma casa. Na casa há uma rapariga. Na rapariga há uma escuridão.
Margo não é como as outras raparigas. Ela vive em Bone, um bairro abandonado, numa casa decrépita, com a sua mãe negligente que não lhe fala há dois anos. Os dias passam e ela sente-se invisível. O seu mundo vira do avesso quando conhece o vizinho Judah Grant, preso a uma cadeira de rodas, que a ajuda a dar mais sentido à sua vida.
Um dia, a tragédia abate-se sobre a pequena comunidade quando uma rapariga de sete anos desaparece. Judah vai tentar ajudar Margo a descobrir o que aconteceu à menina, mas a revelação da verdade irá despertar uma escuridão no seu interior.
Agora Margo está determinada em descobrir molestadores de crianças, e em puni-los, um por um. Mas caçar o mal é perigoso e a jovem arrisca-se a perder tudo, incluindo a sua alma…

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Por vezes há livros que simplesmente parecem fazer ligações connosco, assim do nada. Foi exactamente o que me aconteceu com Margo - não havia nada que me fizesse olhar duas vezes para ele, mas algo me captou a atenção e acabei por o ler em dois dias.

Margo conta a história de... Margo, da forma como ela cresceu num ambiente negro e doentio e de como isso a molda no dia a dia e a influencia a tomar atitudes drásticas. Desde uma cidade e bairro tristes a um ambiente familiar deplorável, vemos como a nossa heroína lida com esses aspectos da sua vida, até que uma criança que Margo conhecia desaparece e isso acorda um lado escondido da sua personalidade, que procura justiça e vingança.
A premissa em si é bastante interessante, prometendo um desenvolvimento de Margo brutal, mas a verdade é que, embora mantenha a opinião de que sim, é uma boa história, a verdade é que não muda muito ao longo das páginas. Margo tem uma vida triste, faz justiça, continua com uma vida triste, faz mais justiça... não é assim nada por aí além. Mais perto do final há uma reviravolta que eu não estava nada à espera e que foi, para mim, o ponto alto de toda a narrativa. Sobretudo porque, embora tudo aponte numa direcção, mesmo no final ficamos na dúvida se será assim tão linear quanto está escrito, e esse sentimento ambíguo construiu um bom clima para terminar a história. A sinopse levou-me a pensar que Margo fosse apenas atrás de molestadores sexuais de crianças, mas é muito mais do que isso.
Gostei bastante do tom sombrio do livro, da forma como a autora decidiu não dar relevância ao lado bonito da existência, optando por expor o degredo e a maldade que nos consomem enquanto sociedade. Há aspectos que tornam a leitura um bocadinho mais leve, pequenos laivos de cor aqui e ali, mas regra geral é algo pesado e ao qual é impossível ficar indiferente; estamos perante algo que é, infelizmente, uma constante no Mundo.
Claramente há algo de apelativo em Margo, com o seu sentido de justiça e de proteger os inocentes, mas mesmo assim não me foi possível realmente ligar-me à personagem. Provavelmente foi este factor que ditou a diferença na classificação do livro - é uma boa história, arrasta-se um pouco mas no final volta a brilhar, no entanto as personagens não me disseram muito. Confesso que gostei mais das secundárias, das que a autora descrevia superficialmente como vizinhas de Margo, do que propriamente de si. Será que isso faz de mim uma má pessoa? 💭

Mesmo estando muito longe de ser um romance fofinho e agradável, é uma leitura extremamente viciante - não me lembro da última vez que li um livro em apenas dois dias.
Quando terminei a leitura, tive de fazer alguma pesquisa relativamente à reviravolta que a autora escreveu, e foi quando descobri algo bastante interessante. Apesar de a sua escrita não ser nada de extraordinário, Tarryn Fisher fez algo tão subliminalmente inteligente que são aqueles pequenos pormenores que distinguem bons escritores dos medianos. Antes de Margo, a autora escreveu Mud Vein, que conta a história de uma escritora que é raptada e tem de completar uma espécie de jogo para conseguir a sua liberdade de volta (ou algo à volta disto). Só vos posso dizer que essa escritora aparece em Margo, e, tal como disse anteriormente, são estes detalhes que fazem os bons escritores. Apesar de ter estragado a magia de Mud Vein para mim, são livros diferentes e que podem ser lidos sem nenhuma ordem; apesar de não ter ficado uma fã automática de Tarryn Fisher, gostava de ver este Mud Vein editado em terras lusas e ter oportunidade de ler mais trabalhos da autora.

Aconselho Margo aos leitores que se sintam capazes de entrar na sua escuridão e sair incólumes pois, como a casa devoradora, também este livro nos leva numa espiral arrepiante, suja e assustadoramente real.

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0 comentários

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.