[Opinião] Valete de Copas e Dama de Espadas, de Joanne Harris

abril 05, 2018

Valete de Copas e Dama de Espadas
Título: Valete de Copas e Dama de Espadas
Título Original: Sleep, Pale Sister
Autora: Joanne Harris
Editora: Edições Asa
Ano de Publicação: 2005
⭐⭐⭐⭐

Henry Paul Chester é um artista vitoriano cujo passado esconde um segredo terrível que deixou marcas profundas nele próprio e na sua arte. A sua obsessão em pintar raparigas jovens e "inocentes" vai conduzi-lo a Effie, uma menina de nove anos, que passa a usar como modelo. Dez anos depois, Chester e Effie casam, e é precisamente neste momento que a relação entre ambos azeda. Effie procura, então, consolo junto de um rival de Chester, o inescrupuloso Moses Zachary Harper. Mas não vai ser ele a confortá-la e sim Fanny Miller, a dona de um bordel, que revê na doce Effie a filha assassinada dez anos antes. Juntas tentam desvelar o sombrio passado de Chester e esboçar um sinistro plano para o desmascarar. Mas o uso da magia acarreta sempre o perigo do oculto… Os vitorianos são famosos por terem construído o conceito de infância tal como a encaramos presentemente. Bem ao seu jeito provocador, Joanne Harris descreve -nos a forma como alguns desses mesmos vitorianos perverteram a sua própria criação.

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Comecei a ler este livro em Novembro (se não estou em erro), um pouco a medo. A minha única experiência com Joanne Harris foi Chocolate, há cerca de 10 anos, e lembro-me de não ter gostado, provavelmente por adorar o filme, e tinha medo que fosse aquele tipo de romances cor-de-rosa e sem sal que andam por aí. No entanto, esta sinopse, a evocar as minhas memórias de Lolita, finalmente convenceram-me a pegar no livro e em boa hora o fiz!

Valete de Copas e Dama de Espadas conta a história de Henry Paul Chester e a sua esposa Effie, mudando de perspectivas entre estes dois, Moses Zachary Harper, inimigo de Chester, e Fanny Miller, dona de um bordel. Chester, pintor, conhece Effie desde pequena, tornando-se obcecado por a pintar nas mais diversas representações, acompanhado o seu crescimento, até acabar por se casar com ela (Lolita vibes everywhere). Effie, uma espécie de mosca morta, pensa encontrar em Moses a sua salvação, e tudo vai acabar num plano concebido por Fanny, com os seus próprios motivos para desejar a queda de Chester. Basicamente, todos contra o pintor, cada um com os seus propósitos, e todos a amarem Effie, cada um com as suas razões pessoais. Não quero dar muitas mais pistas sobre a história, pois é simplesmente fantástica. Os segredos de Chester e Fanny dão vida à narrativa.
Uma das primeiras coisas que me fez gostar bastante do livro foi a forma como está escrito. Não consigo especificar, mas a história parece viva, as palavras parecem hipnotizar o leitor... não sei. Algo incrivelmente mágico está ali. Depois - e foi isto que me fez não adorar o livro de morte - Effie e Moses começaram a aborrecer-me um pouco, desviando um pouco o meu interesse. Cheguei ao fim do livro e pensei que se tratavam todos de um bando de loucos, tão simples quanto isto.
Tal como disse anteriormente, Effie é uma mosca morta. Eu compreendo que o que se passou logo no início do casamento com Chester, a forma como era tratada, as doses de láudano, tudo junto a faça uma sombra, mas mesmo assim, pareceu-me volátil e fácil demais para sentir alguma compaixão por ela. Moses a mesma coisa, o típico bon vivant, um pouco irritante, cheio de falsas promessas. Henry Paul Chester era um ser horrível, mas como personagem era brutal. E Fanny Miller, a melhor coisa que podia ter acontecido a este livro.
Aquele final foi um pouco vago, todo o esoterismo à volta de Fanny fica no ar, mas mesmo assim, um livro muito bem escrito, uma ideia bem executada e sem dúvida uma leitura que vale bem a pena.
Algo que mudaria em Valete de Copas e Dama de Espadas seria, talvez, o número de páginas. Chega a um ponto na narrativa em que eu me perguntei que raio é que ainda poderia acontecer em tantas páginas que ainda faltavam, e acaba por ser tornar um pouco repetitivo. É verdade que aprofunda a miséria e desespero das personagens, mas isso poderia ter sido feito com igual impacto e em menos páginas.

Um aparte: apesar da tradução escolhida para o título na nossa língua ser bastante apelativa (e acaba por ser justificada durante a história), não posso deixar de ter pena da poesia trágica do título original que ficou perdida: Sleep, Pale Sister.

Este livro restabeleceu a minha fé em Joanne Harris. Na estante estão mais dois livros seus para ler, na esperança que me surpreendam tanto como Valete de Copas e Damas de Espadas. Apesar de não contar com um drama tão lúgubre como esta história, espero apaixonar-me pelas suas outras narrativas.

Aconselho este livro a toda a gente - é assim tão bom.
Bónus: há gatos 😀

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.