A Árvore da Mentira, de Frances Hardinge | Opinião

junho 10, 2018

Árvore da mentira
Título: A Árvore da Mentira
Título Original: The Lie Tree
Autora: Frances Hardinge
Editora: 2016
Ano de Publicação: Novo Século
⭐⭐⭐⭐

Na inóspita ilha inglesa de Vane, em pleno século XIX, os Sunderlys desembarcam, atraindo atenções e suspeitas. Quando o reverendo Erasmus, patriarca da família e proeminente estudioso de ciências naturais, é encontrado morto em circunstâncias obscuras, sua filha, a jovem e impetuosa Faith, está determinada a desvendar o mistério. Para isso, precisará de coragem não apenas para confrontar dolorosos segredos mas também para desafiar as implacáveis tradições da sociedade em que vive.
Investigando os pertences do pai em busca de pistas, ela descobre uma planta estranha. Uma árvore que se alimenta de mentiras sussurradas e dá frutos que revelam verdades ocultas.
Quando a espiral das sedutoras mentiras de Faith fica fora de controle, ela compreende que as verdades estilhaçam muito mais.
Combinação de horror, romance policial e realismo fantástico, esta arrepiante história da premiada escritora britânica Frances Hardinge, autora de Canção do Cuco , promete arrebatá-lo do começo ao fim.

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A leitura deste livro surgiu com um desafio relativo a Inglaterra e eu não sabia muito bem o que me esperar. Depois de o ler, fiquei cheia de vontade de conhecer mais obras de Frances Hardinge.

A Árvore da Mentira tem uma premissa sedutora: uma árvore que se alimenta das mentiras que lhe são sussurradas; quanto mais a mentira de espalhar e for tomada como verdade, melhor. O seu fruto traz respostas a mistérios ocultos e isto, para além de não ser para qualquer um, coloca o guardião da árvore em perigo. E é em circunstâncias estranhas que o pai da nossa protagonista aparece morto, no que parece ser um suicídio, mas Faith começa a descobrir que pode haver mais do que isso.
Eu gostei mesmo muito deste livro. Não estava à espera de ser algo assim tão bom, mas a verdade é que é. A autora consegue criar uma trama bastante interessante e imprevisível, diferente do que eu estava à espera. E a simples ideia de sussurrar mentiras para uma árvore e alimentá-la disso? É daquelas coisas tão brutais que eu até fico com um bocadinho de inveja de não ter pensado nisso antes. O livro promete, e cumpre. Durante toda a narrativa temos um ambiente sombrio e quase desolado, o que ajuda ao mistério da história e cria o ambiente perfeito para o desenrolar dos acontecimentos.
Quanto às personagens, o trabalho está tão bem feito assim como o desenvolvimento da história. Faith, apesar de ser uma miúda, não se trata de uma heroína improvável, e acabamos por torcer por ela e pela descoberta da verdade. Gostei bastante de ver a sua relação com o irmão mais novo e com a mãe; uma pelo carinho apesar da possibilidade de ressentimento, e outra pela diferença de atitudes. Outra personagem que também foi muito bem desenvolvida foi o tio de Faith, com todo o mistério que o envolve quando Faith começa a mexer na história da família... 
Outro aspecto interessante deste A Árvore da Mentira, embora tenho sido referido brevemente e não muito explorado, foi a abordagem da Criação vs. Evolução. A trama passa-se durante o séc. XIX  e A Origem das Espécies, de Darwin, foi publicado no mesmo século. Este seria então um tema um pouco melindroso, como retratado numa das cenas da narrativa, mas ficou-se por ali. Gostaria de ter visto o tema mais aprofundado, até porque se mantém actual: não há muito tempo, numa discussão entre amigos, isso foi discutido, e havia quem defendesse a Criação e quem defendesse a Evolução.

Fiquei muito contente com esta leitura, do prazer que me deu a ler, de tentar adivinhar a verdadeira história e a falhar miseravelmente – apenas para ter um gosto maior quando a autora revela tudo. Frances Hardinge ficou no meu radar, com a sua mente brilhante e o seu dom com as palavras. Recomendo vivamente A Árvore das Mentiras a todos os leitores.

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.