Lobos que Foram Homens, de Ricardo S. Amorim | Saída de Emergência | Opinião

junho 03, 2018

Lobos Que Foram Homens
Título: Lobos que Foram Homens
Autor: Ricardo S. Amorim
Editora: Saída de Emergência
Ano de Publicação: 2018
⭐⭐⭐⭐⭐

Com mais de vinte e cinco anos de carreira, os Moonspell são a banda portuguesa mais internacional de sempre, e toda a sua história é agora contada pela primeira vez. Mais do que uma simples biografia de banda, Lobos Que Foram Homens é o dissecar de uma carreira feita de riscos e conquistas, e em que se revelam factos até aqui inteiramente desconhecidos do público.

Com depoimentos de todos os seus actuais e antigos elementos, bem como de diversos colaboradores e membros de outras bandas de referência, esta é uma história contada sem filtros, com todos os ossos à mostra. Acedendo ao círculo íntimo dos Moonspell, o autor explora os seus sucessos e tribulações, mas com o foco direccionado para o lado pessoal e humano das suas relações, que nem sempre foram fáceis, tornando Lobos Que Foram Homens num retrato essencial para compreender o fenómeno Moonspell.

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Nunca fui muito dada a ler biografias, fossem de bandas ou de pessoas individuais. Apesar de gostar de Moonspell, não me via a ler este livro - até que descobri que o prefácio é escrito por nada mais nada menos que o Dani Filth, vocalista de uma das minhas bandas preferidas e cuja escrita (pelo menos a nível das letras musicais) sempre me fascinou.

Lobos que Foram Homens é mais do que uma jornada pela história dos Moonspell. É realmente aprender algo, é viver e sentir a música mais pesada de uma outra forma. O autor não se limita a escarrapachar os dramas e sucessos da banda, dando-se até ao trabalho de explicar o conceito de satanismo, por exemplo, envolvendo o leitor em mais do que "no ano 1900-e-troca-o-passo lançaram o álbum X, pela editora Y, e a seguir foram na digressão Z". Esta preocupação de Ricardo S. Amorim agradou-me de sobremaneira, pois logo pelas primeiras páginas percebemos que estamos perante um relato com sentido, subjectivo dentro da sua objectividade, e sabemos que estamos prestes a embarcar numa aventura do caraças.
Adorei o facto de me conseguir identificar com algumas passagens da história, a mais memorável sendo o meu primeiro concerto de Moonspell, em Valongo, corria o ano de 2006? 2007? Não tenho a certeza, mas o facto de ter chegado mais ou menos perto de onde era, sem saber onde estava, e pensar "não sei onde estou, mas vamos seguir a multidão de preto!" e ver isso reflectido nas palavras do Amorim foi brutal. Já agora, o concerto foi espectacular, ainda lutei por uma toalha no final mas acabei por desistir.

Para quem vai ler o livro, por favor façam-no enquanto ouvem os álbuns. Os capítulos estão mais ou menos divididos por épocas e conseguem fazê-lo; ler a construção daquele trabalho, com as opiniões dos membros, enquanto se ouve a obra final, vai dar-vos uma experiência muito diferente e que foi, para mim, o melhor complemento de sempre a uma leitura.

Tenho várias memórias relacionadas com Moonspell, sendo que o álbum que mais me marcou e que eu mais vivi o Memorial. Para terem uma ideia, eu adorava tanto Moonspell que, com o meu primeiro ordenado, em 2008, tinha duas opções literalmente nas mãos: ou comprava A Filha da Floresta de Juliet Marillier, ou o Night Eternal, de Moonspell. E eu escolhi o último. Vi-os apenas duas vezes, mas tenciono este ano vê-los uma terceira, já que tocam no mesmo dia que Cradle of Filth no Vagos, o que é um thumbs up enorme. Irei vê-los agora com outros olhos, depois de saber o quanto lutaram para estar onde estão agora. Têm fama de arrogantes? Também eu teria, se tivesse de passar pelo que os membros passaram para singrar numa indústria tão complicada.

Super recomendado para os fãs destes sons! Parabéns aos Moonspell, pela sua magnífica carreira, e pela decisão inteligente e acertada de escolherem o Ricardo S. Amorim para escrever a vossa história.

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.