Desafio 30 Dias, 30 Cartas - Dia 17 - Carta para Alguém da tua Infância

maio 18, 2013


Sexta-feira, 17 de Maio

Querida Vitória

O meu coração sofre contigo, ao saber a dor pela qual estás a passar. Não há palavras que descrevam tamanho horror, e quem me dera poder estar ao teu lado para te poder abraçar. Lembras-te quando eu te fazia isso, quando éramos pequenas, tu ias distraída a ler e tropeçavas e choravas, e eu limitava-me a abraçar-te até te acalmares?

Minha querida, eu posso tratar tudo com o Daniel para que venhas passar uma temporada connosco e deixes esses ares para trás uns tempos. Afinal de contas, aqui respira-se muito bem. Respondendo às tuas perguntas, aceitaram-me como os nativos aceitam os estrangeiros: primeiro de lado, dissimuladamente; agora, de frente, abertamente. Não escondem o seu desagrado e não perdem uma oportunidade de realçar o aspecto de eu não ser daqui. Mas sinceramente, não me incomoda. Por puro acaso eu e o Daniel encontramos aqui uma pequena comunidade dos nossos, e costumamos juntar-nos para as mais diversas actividades: teatro, tertúlias, música, exposições... Não posso dizer que esteja mal por aqui, há muita coisa por onde escolher. Considera o meu convite Vitória, e eu preparo tudo para a tua chegada.

Voltando ao teu assunto, talvez estejas a ser dura contigo. Demasiado dura, quero eu dizer (sabes como eu odeio rasurar as palavras quando me engano). O teu coração fez uma escolha que de certo a tua cabecinha queria mas não aprovava. Desengana-te se pensas que mandas alguma coisa no teu coração; e apesar de não lamentar verdadeiramente a perda de nenhum (a minha relação com o teu pai nunca foi a melhor e se Germano não significava assim tanto para ti, não há motivo para o chorar por simpatia), percebo que seja complicado. Mas nada podes fazer agora. Portanto, limpa os teus olhos e caminha. Sempre em frente. Não olhes para trás e apenas vive. E tenta fazê-lo com esperança.

Espero ver-te em breve,
Emília

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.