O Diário Perdido de Don Juan, de Douglas Carlton Abrams - Opinião

junho 03, 2015

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Título: O Diário Perdido de Don Juan
Título Original: The Lost Diary of Don Juan
Autor: Douglas Carlton Abrams
Editora: Editorial Presença
Ano de Publicação: 2007
Páginas: 282

Há qualquer coisa inexplicavelmente irresistível aos meus olhos quando se fala de Don Juan ou Casanova. Este último já deu ares de sua graça aqui no blogue, mas Don Juan surge dois anos e meio depois do nascimento do cantinho. Sobretudo por falta de oportunidade, mas há já imenso tempo que este livro me chamava cada vez que iniciava uma nova leitura. Finalmente peguei-lhe e, apesar de não me arrepender por não o ter lido mais cedo, é sem dúvida uma excelente surpresa.

O livro é apresentado como uma tradução feita pelo próprio autor de um velho diário que lhe foi entregue, tentando trazer um pouco de veracidade à história. Apesar de na altura ter a ideia romântica de mistério - será que Don Juan existiu verdadeiramente? -, a introdução pareceu-me desnecessária e demasiado forçada. Digo na altura pois entretanto investiguei a identidade de Don Juan, apenas para descobrir que o mais provável é tratar-se, de facto, de uma lenda. Ora, isto tira um pouco de magia ao romance, mas não lhe retira, de todo, a sua excelência.
O Diário Perdido de Don Juan, tal como o nome indica, é escrito pelo próprio, descrevendo algumas das suas peripécias amorosas. Constantemente perseguido pela Inquisição e fragilmente protegido pelo Marquês, Don Juan vê-se, de repente, apaixonado. Tudo muda, e a partir daí a narrativa enche-se de uma tensão tremenda que culmina de uma forma arrebatadora, triste e inesquecível. Apesar do final mais ou menos dúbio, os factos são angustiantes e a sensação de melancolia é inevitável.
De louvar o trabalho de tradução deste livro. Na minha opinião é, indiscutivelmente, o seu ponto mais alto. Trata-se, sem dúvida, das melhores traduções que alguma vez tive o prazer de ler. Não conhecendo o original nem precisando de tal, a versão portuguesa está irrepreensível e todo o sentimento à volta da história acaba por se adensar, junto com a forma mágica e quase arcaica em que está escrito.
É um livro voluptuoso e bastante sensual, ao mesmo tempo sendo extremamente poético e apaixonado. A forma de Don Juan encarar as mulheres, em termos literários, é de facto um hino à beleza e prazer femininos.

Nada a apontar a este magnífico livro. Se Don Juan vos assombra daquele modo misterioso e romântico que mencionei atrás, então têm de ler esta obra. Se gostam de um romance histórico bem construído e memorável, então têm de ler esta obra.

"É bem provável que o lendário sedutor tenha sido inspirado por uma pessoa de carne e osso, mas até hoje ninguém conseguiu comprovar isso. Vários historiadores tentaram descobrir sua identidade pesquisando famílias aristocráticas na Espanha e chegaram a supor que ele seria Miguel Mañara, nobre de Sevilha famoso por seu comportamento libertino. Mas Mañara acabou sendo descartado porque nasceu em 1626, apenas quatro anos antes de o personagem estrear na obra O Burlador de Sevilha e O Convidado de Pedra, do espanhol Tirso de Molina, de 1630. "Acredita-se que Molina teria se baseado em vários contos populares sobre libertinos da época. Foi o elemento demoníaco do sedutor, em uma época muito religiosa, o que o tornou tão popular", afirma o filósofo Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP). De fato, Don Juan transformou-se em fonte de inspiração para inúmeras obras de arte no mundo todo."

Mais que recomendado!

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.