O Que se Perdeu, de Catherine O'Flynn - Opinião [Estampa]

julho 16, 2015

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Título: O que se Perdeu
Título Original: What Was Lost
Autora: Catherine O'Flynn
Editora: Estampa
Ano de Publicação: 2009
Número de Páginas: 208

Depois de tanto tempo passado desde que li este livro, ainda hoje me pergunto o porquê da minha escolha, e ainda hoje não sei ao certo o que me levou a querer lê-lo. Mas uma coisa é certa: não estou, de todo, arrependida.

O Que se Perdeu conta duas histórias separadas pelo tempo. Primeiro, temos a da pequena Kate, que sonha em ser detective, depois; temos a de Lisa e Kurt, e descobrimos que Kate desapareceu há cerca de 20 anos. Lisa é a irmã do suspeito do desaparecimento da menina, e Kurt a última pessoa a ver Kate com vida. O livro não se trata de nenhum policial, em que duas décadas depois Lisa e Kurt conseguem descobrir o paradeiro da criança desaparecida. Catherine O'Flynn traz-nos num romance magistral uma análise poderosa  à nossa vida e a tudo o que gira à nossa volta.
É impossível não se gostar da personagem de Kate. Para além de extremamente divertida em toda a organização da sua firma de detectives e do seu diário de observações, a sua inocência e a sua solidão são comoventes. Conseguimos perceber como é uma criança sozinha e como prefere passar horas no shopping a observar as pessoas, pois tem a certeza que vai ocorrer algum crime e que o seu testemunho será de extrema importância para se resolver a situação. O que Kate não podia prever era que o crime seria o seu desaparecimento.
Lisa e Kurt são boas personagens mas um pouco monótonas. Kurt é vigilante no shopping, enquanto Kate trabalha na loja de música. Só se conhecem mais à frente na narrativa, e embora sejam reactores nas epifanias um do outro, penso que passavam bem sem se conhecerem. Kurt começa a ver pelas câmaras de vigilância algo como uma menina nos corredores, quando na verdade não está lá nada, o que só complica todos os seus anseios. Juntamente com Lisa, tentam descobrir a verdade sobre o desaparecimento de Kate. O seu desenvolvimento e decisões que vão tomando são importantes, mas há uma diferença tão grande entre as duas partes do livro! Com Kate é sempre sol - com Lisa e Kurt o céu está nublado. Lá para o final do livro fica um bocadinho mais de sol... excepto para Lisa. O final é demasiado triste para que ela tenha direito a um sol radioso.
Para além da trama óbvia, há algo mais em O Que se Perdeu. Toda a reflexão em volta do shopping, de se trabalhar lá, de como a sua abertura afectou uma comunidade, em como tudo está em constante vigilância... Apesar de, quando li o livro, estes assuntos me terem passado um pouco ao lado (estava demasiado encantada com Kate para me chamarem a atenção como deviam), agora olhando para trás reconheço a sátira que Catherine impôs na narrativa.
Houve apenas uma parte no livro que não me agradou. As observações dos clientes do shopping, aleatórias e repentinas, chatearam-me. Para mim, não fizeram sentido nenhum e eram completamente dispensáveis.

Não sou pessoa de ligar aos prémios que os livros ganham e a todos esses processos. Mas O Que se Perdeu ganhou o prémio Costa First Novel Award, uma distinção para o melhor primeiro livro de um autor em Inglaterra. E se o ganhou, por algum motivo foi. Corram a ler este romance fantástico de Catherine O'Flynn, e preparem-se para deixar a pequena Kate entrar nas vossas vidas, preparem-se para partilhar as vossas angústias com Kurt e Lisa, e preparem-se para um final surpreendente e extremamente triste.

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Um livro é muito mais do que um volume transportável. Um livro é uma mala que levamos connosco quando vamos viajar, pois nele temos tudo o que precisamos. Um livro é mais do que um bem comercializável, é o orgulho de carregar a alma em palavras do seu autor. Um livro é mais do que um livro, ao fim e ao cabo. É o nosso pai e a nossa mãe quando se precisa, nunca esperando mais de nós mas sempre lá para nos dar uma lição. É mais do que um amigo, pois não nos julga, não nos faz perguntas; ouve o nosso interior e responde às questões que nem nós sabíamos que tínhamos cá dentro. Um livro é mais do que um amante, duro como a realidade: umas vezes sonhamos e deleitamo-nos nas suas folhas, outras deixamos dobradas, riscadas, magoadas, outras deixamos a um canto e nunca mais olhamos. Desperta em nós uma panóplia de sensações: o toque da capa, da folha; o cheiro das páginas; o prazer da beleza da capa, das letras. Um livro é mais do que isto tudo, e ainda mais do que isso. Porque com ele viajamos, sonhamos, vivemos, aprendemos, amamos, sentimos, choramos e rimos, tudo sem sair do sítio. E uma façanha destas, vinda de algo tão pequeno e tão frágil, é quase comovente.